Um vale cercado por montanhas virou capital religiosa por dez séculos e seus templos de tijolo ainda guardam cenas de uma cultura que desapareceu
Torres de tijolo e relevos de arenito preservam quase dez séculos de transformações religiosas e políticas do antigo reino de Champa
No centro do Vietnã, uma bacia montanhosa coberta por vegetação preserva as ruínas de um dos principais centros religiosos do antigo reino de Champa. O santuário de Mỹ Sơn reúne torres-templo de tijolo, pilares de pedra e relevos de arenito, construídos e modificados entre os séculos IV e XIII. O conjunto registra quase dez séculos de mudanças arquitetônicas, religiosas e políticas ligadas principalmente ao hinduísmo.
Por que o santuário de Mỹ Sơn se tornou tão importante para Champa?
Mỹ Sơn ficava numa área protegida por montanhas, próxima às cabeceiras do rio Thu Bồn, importante corredor que atravessava o território cham até o litoral. A localização unia significado religioso e valor estratégico, enquanto o vale funcionava como centro cerimonial associado aos reis de Champa durante grande parte da história do reino.
Os primeiros santuários são relacionados ao reinado de Bhadravarman I, no século IV, e ao culto de Shiva, especialmente sob a forma de Bhadresvara. Governantes posteriores reconstruíram templos, instalaram inscrições e acrescentaram novos monumentos, transformando o complexo numa espécie de arquivo arquitetônico das diferentes dinastias cham.
Como os construtores ergueram torres tão complexas usando tijolos?
As estruturas mais características são torres construídas principalmente com tijolos cozidos, combinados com elementos de pedra e arenito. Os templos centrais, conhecidos como kalan, tinham função sagrada e simbolizavam o monte Meru, montanha considerada o centro do universo na cosmologia hindu.
Os monumentos apresentam paredes espessas, portas reais e falsas, pilastras e superfícies decoradas. O modo preciso como muitos tijolos foram unidos ainda chama atenção dos pesquisadores, embora diferentes técnicas de construção e restauração tenham sido propostas ao longo dos estudos arqueológicos.
- Torres principais dedicadas a divindades;
- Tijolos cozidos formando grande parte das paredes;
- Pilares e elementos estruturais de pedra;
- Relevos de arenito com figuras religiosas.
Este vídeo da Vietnam News Agency apresenta o complexo de Mỹ Sơn e suas principais estruturas:
O que os relevos do santuário de Mỹ Sơn revelam sobre a religião?
Esculturas e baixos-relevos mostram divindades, animais míticos, dançarinos e cenas ligadas à tradição hindu. Shiva ocupava posição central em muitos cultos, enquanto lingas instalados nos santuários representavam sua presença divina e também podiam se associar à legitimidade dos governantes.
Essas imagens não permaneceram iguais durante dez séculos. Mudanças de estilo revelam influências externas e transformações internas da sociedade cham. Elementos vindos da Índia foram reinterpretados localmente, produzindo uma tradição artística própria em vez de uma simples reprodução de modelos estrangeiros.
Mỹ Sơn era realmente uma capital política permanente?
A expressão “capital religiosa e política” usada pela UNESCO descreve a grande importância do complexo para Champa, mas não significa que todos os governantes tenham administrado permanentemente o reino a partir daquele vale. Champa possuía diferentes centros de poder ao longo de sua história, ligados a mudanças dinásticas e territoriais.
Mỹ Sơn funcionou sobretudo como núcleo religioso associado à realeza, cerimônias e memória das dinastias. A própria UNESCO considera o local um exemplo excepcional de intercâmbio cultural, no qual uma sociedade do Sudeste Asiático adaptou elementos do hinduísmo indiano às suas próprias tradições.

O que os números mostram sobre o santuário de Mỹ Sơn?
As construções começaram no século IV e continuaram, com interrupções e reconstruções, até aproximadamente o século XIII. O complexo chegou a possuir mais de 70 estruturas conhecidas, embora guerras, abandono, clima e deterioração tenham destruído ou danificado parte significativa delas.
A UNESCO incluiu Mỹ Sơn na Lista do Patrimônio Mundial em 1999, reconhecendo tanto sua importância para a história de Champa quanto seu valor arquitetônico. Os monumentos sobreviventes abrangem diferentes fases e estilos, permitindo acompanhar séculos de transformação artística.
Por que essas ruínas ainda são importantes para entender Champa?
Mỹ Sơn preserva evidências de uma civilização que desempenhou papel importante na história do atual Vietnã e nas redes culturais do Sudeste Asiático. Os edifícios mostram como religião, autoridade real, arquitetura e intercâmbios com outras regiões se misturaram durante séculos.
O reino de Champa desapareceu como entidade política independente, mas o povo cham e aspectos de sua cultura continuam existindo. Por isso, as ruínas não representam simplesmente uma sociedade que deixou de existir: elas documentam uma longa história cujas tradições tiveram continuidade mesmo depois das transformações políticas da região.
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