Um grupo de aves do Havaí perdeu espécies inteiras, mas DNA de museu permitiu encaixar extintas e sobreviventes na mesma árvore evolutiva
Genomas recuperados de peles e ossos de museu revelaram relações perdidas e uma diversidade evolutiva maior do que se imaginava
Peles antigas, pequenos fragmentos de tecido e até ossos guardados em museus permitiram reconstruir uma história evolutiva que a extinção havia fragmentado. Os honeycreepers havaianos formam uma das radiações adaptativas mais extraordinárias entre as aves, mas muitas de suas linhagens desapareceram. Em 2026, pesquisadores do Smithsonian combinaram DNA de espécies vivas, extintas e fósseis para produzir a árvore evolutiva mais abrangente já feita desse grupo.
Como os honeycreepers havaianos surgiram de um único ancestral?
Mais de 60 espécies e formas conhecidas de honeycreepers evoluíram a partir de um ancestral semelhante aos rosefinches que chegou às ilhas havaianas milhões de anos atrás. Isoladas no arquipélago, diferentes populações desenvolveram bicos, dietas e modos de vida extremamente variados, ocupando nichos disponíveis nas novas ilhas vulcânicas.
A nova análise indica que grande parte dessa diversificação ocorreu rapidamente entre aproximadamente 3,5 e 2,5 milhões de anos atrás, período próximo à formação de Oʻahu. Os pesquisadores descrevem esse episódio como uma espécie de “Big Bang” evolutivo, no qual diversas linhagens se separaram num intervalo relativamente curto.
Como exemplares antigos de museu devolveram espécies extintas à árvore?
Para recuperar relações perdidas, os pesquisadores retiraram quantidades mínimas de material de peles históricas preservadas em coleções dos Estados Unidos e da Europa. Técnicas modernas permitiram extrair informação genética mesmo de DNA degradado, fragmentado durante décadas ou séculos de armazenamento.
A equipe combinou genomas mitocondriais, dados do genoma completo e captura direcionada de sequências. Também conseguiu recuperar DNA de pequenos ossos fósseis, permitindo posicionar duas formas conhecidas apenas pelo registro paleontológico junto às espécies documentadas historicamente.
- 17 táxons de honeycreepers ainda sobrevivem;
- 18 formas adicionais conhecidas em 1778 foram incorporadas;
- Duas formas conhecidas apenas por fósseis entraram na análise;
- Mais de 60 honeycreepers evoluíram no arquipélago.
Este documentário apresenta honeycreepers ameaçados de Kauaʻi e os ambientes florestais onde algumas das linhagens sobreviventes ainda persistem:
O que a árvore dos honeycreepers havaianos revelou sobre as extinções?
Um dos resultados mais importantes envolveu os mamos, aves hoje extintas. Análises anteriores haviam sugerido uma proximidade taxonômica maior entre esses pássaros e o ʻiʻiwi, espécie ainda existente. Os novos dados genômicos rejeitaram essa simplificação.
Os mamos formam uma linhagem extinta sem parentes vivos próximos dentro da árvore reconstruída. Isso significa que seu desaparecimento eliminou uma quantidade maior de história evolutiva independente do que se percebia apenas contando quantas espécies haviam desaparecido.
Por que essa árvore evolutiva também revelou cruzamentos entre espécies?
A evolução dos honeycreepers não seguiu exclusivamente um padrão de ramos que nunca voltaram a se encontrar. Dados de genoma completo confirmaram sinais de mistura genética entre o extinto ʻōʻū, Psittirostra psittacea, e o Lānaʻi hookbill, Dysmorodrepanis munroi. Também existem sinais atuais de fluxo gênico entre formas de ʻamakihi.
O Smithsonian Institution explica que esse intercâmbio genético provavelmente participou da complexa radiação adaptativa do grupo. Assim, uma árvore evolutiva tradicional continua útil, mas parte da história real inclui conexões entre linhagens anteriormente separadas.

O que os números mostram sobre a perda de diversidade evolutiva?
Dos honeycreepers conhecidos como existentes na época da chegada europeia às ilhas, em 1778, apenas 17 táxons são considerados sobreviventes atualmente. Entre estes, apenas o ʻamakihi-comum, Chlorodrepanis virens, e o ʻapapane, Himatione sanguinea, aparecem classificados como de menor preocupação.
O restante enfrenta diferentes níveis de ameaça. Perda de habitat, predadores introduzidos, doenças transmitidas por mosquitos e mudanças climáticas contribuíram para o declínio, enquanto a malária aviária permanece especialmente importante para várias populações de altitude.
Por que a árvore dos honeycreepers havaianos pode ajudar na conservação?
Uma espécie numericamente rara já exige atenção, mas a posição que ela ocupa na árvore acrescenta outra dimensão. Uma linhagem sem parentes vivos próximos carrega uma parcela de história evolutiva que não pode ser representada por outra espécie caso desapareça.
Para os honeycreepers havaianos, essa informação pode complementar avaliações de risco, estudos de doenças e decisões de conservação. Os genomas recuperados também oferecem material para investigar resistência à malária aviária e compreender por que algumas linhagens sobreviveram enquanto outras desapareceram.
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