Vestígios de cacau apareceram numa cidade do atual estado da Geórgia e sugerem que o ingrediente viajou milhares de quilômetros até banquetes há cerca de mil anos
DNA antigo em cerâmicas mississippianas revelou consumo de cacau no sudeste dos Estados Unidos durante os séculos XI e XII
Fragmentos de cerâmica escavados em Etowah, importante centro indígena no atual estado norte-americano da Geórgia, guardavam uma surpresa microscópica. DNA antigo revelou cacau em Etowah em recipientes associados a atividades coletivas dos séculos XI e XII. Como Theobroma cacao não cresce naturalmente naquela região, o achado publicado em 2026 amplia a discussão sobre redes que transportavam alimentos e outros produtos por grandes distâncias nas Américas antes da colonização europeia.
Como o cacau em Etowah foi encontrado depois de quase mil anos?
Os pesquisadores analisaram resíduos retirados de fragmentos de vasos do tipo Etowah Complicated Stamped. As peças haviam sido encontradas em grandes fossas que posteriormente receberam restos de animais, cerâmica quebrada e materiais orgânicos relacionados a banquetes e à construção do primeiro grande montículo de plataforma do assentamento.
Estudos anteriores haviam detectado cafeína, teobromina e outros compostos nesses recipientes. O problema é que substâncias semelhantes também aparecem no azevinho yaupon, planta nativa usada em bebidas indígenas. Por isso, a identificação química sozinha não permitia concluir que os recipientes haviam realmente contido cacau.
Como o DNA conseguiu diferenciar o cacau de outras bebidas?
A nova pesquisa utilizou técnicas de DNA antigo em três amostras que anteriormente apresentavam os quatro alcaloides analisados. Depois de sequenciamento e filtros bioinformáticos rigorosos, fragmentos específicos de Theobroma cacao apareceram em duas delas. O DNA tinha tamanho médio muito reduzido e características esperadas de material antigo degradado.
Os pesquisadores também adotaram protocolos para reduzir o risco de contaminação por chocolate moderno. Embora a quantidade recuperada fosse pequena, a combinação entre sequências específicas de cacau, degradação molecular e resíduos químicos anteriores levou a equipe a considerar sólida a evidência de consumo.
- Três amostras foram submetidas à análise de DNA antigo;
- Duas apresentaram sequências específicas de Theobroma cacao;
- Os fragmentos de DNA tinham em média cerca de 84 pares de bases;
- As cerâmicas vieram de contextos dos séculos XI e XII.
Este vídeo da GPB Education apresenta o sítio de Etowah e ajuda a visualizar o centro mississippiano onde as cerâmicas foram encontradas:
O que o cacau em Etowah revela sobre os antigos banquetes?
As peças analisadas vieram de fossas associadas à construção do primeiro montículo de plataforma de Etowah. Esses depósitos continham concentrações de restos interpretadas arqueologicamente como resultado de banquetes coletivos realizados numa fase inicial de desenvolvimento da cidade.
Os autores sugerem, portanto, que bebidas contendo cacau poderiam ter participado dessas atividades comunitárias. Isso não significa que chocolate fosse consumido cotidianamente por toda a população. A evidência disponível está ligada a poucos recipientes e a um contexto específico de reunião, alimentação e construção monumental.
De onde poderia ter vindo um ingrediente tropical?
O cacaueiro necessita de condições tropicais e não poderia ter sido cultivado naturalmente na Geórgia. Sua presença implica algum tipo de circulação a partir de regiões produtoras, possivelmente na América Central, embora os pesquisadores não tenham identificado a rota nem demonstrado contato direto entre Etowah e comunidades mesoamericanas.
O estudo publicado na PLOS ONE ressalta justamente essa incerteza. As semelhanças genéticas encontradas são preliminares, e os autores consideram tanto redes passando pelo norte do México quanto possíveis conexões indiretas através do atual sudoeste dos Estados Unidos.

Quais números ajudam a entender o cacau em Etowah?
Etowah foi ocupado durante o período mississippiano e atingiu grande importância séculos depois dos depósitos analisados. As cerâmicas com DNA de cacau pertencem aos séculos XI e XII, cerca de dois séculos antes do auge do centro durante o século XIV.
Os pesquisadores compararam ainda pequenas quantidades de variantes genéticas preservadas. Uma amostra apresentou maior proximidade com grupos Amelonado e Marañon, enquanto a outra se aproximou de Curaray e Marañon. Como apenas poucos marcadores estavam disponíveis, a origem geográfica permanece indefinida.
| Evidência | Resultado |
|---|---|
| Cerâmicas analisadas com DNA | 3 amostras |
| Positivas para DNA de cacau | 2 amostras |
| Idade do contexto | Séculos XI–XII |
| DNA fragmentado | Média de 84 pares de bases |
Por que esse achado muda a discussão sobre as redes pré-colombianas?
Cacau já havia sido identificado em contextos pré-colombianos de Chaco Canyon, no atual Novo México. Encontrá-lo também no sudeste norte-americano indica que sua circulação poderia ser mais ampla do que se imaginava e alcançava sociedades mississippianas distantes das regiões tropicais produtoras.
A descoberta não prova uma única rede comercial contínua atravessando milhares de quilômetros. Ela demonstra, porém, que um produto tropical chegou a Etowah por alguma sequência de contatos e trocas. Novas análises arqueogenômicas poderão mostrar se esse consumo ocorreu também em outros centros mississippianos.
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