Um fóssil microscópico de 407 milhões de anos preservou uma parceria entre planta e fungo que pode ter ajudado a vida vegetal a conquistar a terra firme
Estruturas preservadas na Escócia revelam uma antiga associação micorrízica entre uma planta do Devoniano e uma nova espécie de fungo
Dentro dos tecidos fossilizados de uma planta do Devoniano Inferior, pesquisadores identificaram uma espécie de fungo até então desconhecida. O fungo fóssil Rugososporomyces lavoisierae viveu associado a Aglaophyton majus há cerca de 407 milhões de anos, na atual Escócia. Estruturas preservadas em escala microscópica mostram uma relação semelhante às micorrizas atuais e reforçam a hipótese de que parcerias com fungos contribuíram para o sucesso inicial das plantas em terra.
Como o fungo fóssil sobreviveu por 407 milhões de anos?
O material veio do Windyfield Chert, próximo de Rhynie, no nordeste da Escócia. Essa unidade geológica preserva organismos de aproximadamente 407,1 ± 2,2 milhões de anos e registra um antigo ambiente influenciado por fontes termais. Águas ricas em sílica envolveram organismos e tecidos vegetais, favorecendo uma preservação celular excepcional.
Foi dentro de um eixo fossilizado de Aglaophyton majus que os pesquisadores encontraram hifas, esporos, vesículas e estruturas ramificadas atribuídas ao novo fungo. O exemplar estudado pertence ao National Museum of Scotland e foi analisado em uma lâmina com cerca de 70 micrômetros de espessura.
O que mostra que planta e fungo cooperavam?
A evidência mais importante são os arbúsculos, estruturas muito ramificadas formadas pelo fungo dentro das células vegetais. Em micorrizas arbusculares modernas, elas aumentam enormemente a superfície de contato entre os organismos e funcionam como regiões especializadas de transferência de substâncias.
Sua presença no fóssil permitiu aos pesquisadores interpretar a associação como simbiótica, e não como um fungo simplesmente decompondo uma planta morta ou agindo como parasita. A anatomia preservada lembra a de fungos micorrízicos arbusculares atuais, especialmente os associados ao grupo Glomeromycotina.
- Hifas crescendo entre tecidos vegetais;
- Arbúsculos preservados dentro de células;
- Vesículas associadas à colonização;
- Esporos com superfície rugosa.
Este vídeo mostra como funcionam as micorrizas e as estruturas usadas na troca de nutrientes entre plantas e fungos:
Como o fungo fóssil foi identificado dentro da planta?
A equipe combinou microscopia confocal de varredura a laser, microscopia de tempo de vida de fluorescência e espectroscopia Raman. Essas técnicas permitiram distinguir detalhes que poderiam passar despercebidos na microscopia convencional e reconstruir estruturas do fungo em três dimensões.
Os pesquisadores identificaram características próprias suficientes para estabelecer um novo gênero e uma nova espécie. Rugososporomyces lavoisierae apresenta hifas ramificadas, esporos globosos de superfície rugosa e arbúsculos intracelulares, além de outras estruturas comparáveis às observadas em fungos micorrízicos.

Essa parceria realmente ajudou as plantas a conquistar a terra?
O fóssil não demonstra sozinho que essa espécie específica tenha possibilitado a colonização terrestre pelas plantas. A transição começou muito antes de Aglaophyton, e diferentes linhagens vegetais e fúngicas participaram desse processo evolutivo ao longo de dezenas de milhões de anos.
Ainda assim, a descoberta fortalece um conjunto crescente de evidências de que relações semelhantes já estavam estabelecidas no Devoniano. A Universidade de Cambridge destaca que essas associações poderiam ampliar o acesso vegetal a água e nutrientes minerais em ambientes terrestres primitivos.
O que os números revelam sobre o fungo fóssil?
Os esporos de Rugososporomyces lavoisierae podiam atingir aproximadamente 74 micrômetros de diâmetro. As hifas observadas variavam em espessura, enquanto estruturas ligadas aos arbúsculos chegavam a poucos micrômetros, dimensões que mostram o grau extraordinário de preservação do material.
A descoberta também representa o primeiro registro de micorriza conhecido no Windyfield Chert. Aglaophyton majus já havia sido associado a outro tipo de fungo, indicando que uma mesma planta antiga podia manter relações com mais de um parceiro fúngico.
Por que essa parceria microscópica é importante para entender a vida terrestre?
As micorrizas continuam fundamentais nos ecossistemas atuais. Fungos associados às plantas ampliam a capacidade de explorar o substrato e obter elementos como fósforo, enquanto recebem compostos de carbono produzidos pela fotossíntese. Encontrar estruturas comparáveis em fósseis tão antigos revela a profundidade evolutiva dessa estratégia.
O estudo também mostra como novas técnicas podem extrair informações de fósseis conhecidos há décadas. Sem DNA preservado, padrões de fluorescência, anatomia microscópica e composição química permitem reconhecer organismos que permaneceram praticamente invisíveis dentro da rocha por mais de 400 milhões de anos.
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