Cientistas liberaram milhares de litros de soda cáustica no mar em teste inédito sobre o combate prático à acidez dos oceanos
O experimento busca medir na prática como a técnica altera as condições da água
Uma mancha avermelhada apareceu no Golfo do Maine durante um experimento que parece contraditório à primeira vista: pesquisadores adicionaram uma solução de hidróxido de sódio, a soda cáustica, à água do mar. A operação não buscava poluir o oceano, mas medir em condições reais se aumentar temporariamente sua alcalinidade pode ampliar a absorção de dióxido de carbono da atmosfera.
Por que cientistas colocaram soda cáustica no oceano?
O objetivo foi testar o aumento da alcalinidade oceânica, uma técnica estudada para fazer a água absorver mais CO₂ atmosférico. Quando o dióxido de carbono entra no oceano, parte dele altera a química da água e contribui para a acidificação.
O hidróxido de sódio aumenta a alcalinidade e muda esse equilíbrio químico. Isso pode permitir que a superfície do mar receba mais carbono da atmosfera sem provocar o mesmo aumento de acidez que ocorreria naturalmente com a entrada adicional de CO₂.
A Woods Hole Oceanographic Institution, WHOI apresentou em fevereiro de 2026 os primeiros resultados do experimento realizado em agosto de 2025.

Quanto material foi liberado e como o teste foi acompanhado?
A autorização da EPA permitiu a liberação de 16.500 galões de solução de hidróxido de sódio a 50%, cerca de 62,5 mil litros. A dispersão ocorreu durante aproximadamente 6 horas na Bacia de Wilkinson, em águas federais do Golfo do Maine.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, EPA aprovou o teste depois de análise técnica e 2 períodos de consulta pública. A versão final do projeto reduziu em 75% a quantidade inicialmente proposta de solução alcalina.
Por que a água ficou vermelha se a soda cáustica é incolor?
A coloração veio de um corante rastreador chamado Rhodamine Water Tracer, e não do hidróxido de sódio. A equipe precisava enxergar para onde a água tratada se deslocava enquanto correntes, ondas e mistura natural diluíam a solução.
O acompanhamento combinou diferentes sistemas:
- Satélites: acompanharam a evolução da mancha em grande escala.
- Veículos autônomos: mediram propriedades da água abaixo da superfície.
- Sensores embarcados: acompanharam pH, CO₂ e outras variáveis químicas.
- Amostras biológicas: permitiram comparar organismos dentro e fora da área tratada.
O que os resultados de 2026 mostraram sobre a água e a vida marinha?
Os resultados preliminares indicaram que o pH e o corante retornaram aos níveis de base dentro do período previsto e que a área tratada conseguiu absorver carbono da atmosfera. A equipe também conseguiu comparar o deslocamento real da mancha com seus modelos.
A WHOI informou que, nas variáveis analisadas, não foram encontradas diferenças significativas entre a área tratada e as regiões de comparação para bactérias, fitoplâncton, zooplâncton, larvas de peixes e larvas de lagosta. Isso vale para a escala e o tempo desse experimento, não para uma aplicação oceânica ampla.
Leia também: Cientistas tingiram de rosa uma parte do oceano em outro olhar sobre o experimento
O teste provou que essa técnica pode ser usada em grande escala?
Ainda não. O experimento mostrou que uma dispersão pequena pode ser controlada, rastreada e acompanhada com precisão, além de produzir condições para absorção adicional de carbono.
Em junho de 2026, um artigo do ICES Journal of Marine Science descreveu o LOC-NESS como o maior teste científico não comercial desse tipo realizado nos Estados Unidos até então e destacou o peso do acompanhamento de comunidades costeiras e do setor pesqueiro no desenho do projeto.
Os próprios pesquisadores afirmam que a técnica não substitui a redução das emissões. O que o Golfo do Maine forneceu foi algo mais limitado e útil: um teste real para saber se a química pode ser controlada e medida antes de qualquer discussão sobre uma escala muito maior.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)