Uma gôndola de verdade flutua na praça: a cidade catarinense onde 95% dos moradores descendem de italianos e a lei federal carimbou a capital da cozinha da nonna
A herança italiana continua presente na comida, na fala e nos costumes
Poucas cidades brasileiras conservam a Itália viva com tanta fidelidade. No sul de Santa Catarina, Nova Veneza guarda uma gôndola autêntica trazida dos canais de Veneza, um dialeto vêneto que ainda aparece nas conversas de família e um título federal que a consagrou como capital da gastronomia italiana no país. É um pedaço do norte da Itália encravado na Mata Atlântica.
Por que Nova Veneza é a Capital Nacional da Gastronomia Típica Italiana?
O título é oficial e veio por lei federal. A Lei nº 13.678, sancionada em 2018, reconheceu a cidade como Capital Nacional da Gastronomia Típica Italiana, consagrando a tradição mantida pelos descendentes do Vêneto. Segundo o Portal Municipal de Turismo de Nova Veneza, são mais de vinte restaurantes que celebram os sabores da Itália com massas, polenta, galetos, vinhos artesanais, cafés e gelatos.
A cozinha aqui é a da fazenda e da família, feita com base nas receitas da nonna e da mamma. O ponto alto do calendário é a Festa da Gastronomia Típica Italiana, realizada em junho, que dentro de sua programação abriga o Carnevale di Venezia, considerado o maior evento desse gênero fora da Itália, com máscaras, trajes coloridos e marchinhas cantadas em italiano.

Como uma gôndola de Veneza foi parar no sul de Santa Catarina?
A embarcação chegou como presente diplomático. A gôndola Lucille circulou pelos canais de Veneza antes de ser doada e trazida ao Brasil em 2006, transportada em um container de navio até o porto de Itajaí e depois de caminhão até a cidade. Totalmente artesanal, ela representa o laço entre Nova Veneza e a região italiana que batizou o município.
O gesto colocou a cidade em uma lista curtíssima. Nova Veneza é uma das poucas do mundo presenteadas com uma gôndola oficial de Veneza, ao lado de nomes como Toronto e São Petersburgo. Hoje a embarcação repousa em um espelho d’água no centro, um dos cartões-postais mais fotografados de quem visita a cidade.
As Casas de Pedra que guardam a chegada dos imigrantes
As Casas de Pedra da Família Bratti preservam o momento exato em que os imigrantes transformaram a paisagem em moradia. Erguidas a partir de 1891 pelo imigrante Luigi Bratti, o conjunto de três casas foi levantado com barro e pedras de basalto retiradas do próprio terreno, usando uma técnica de construção trazida da Itália. Numa cidade de 13.664 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a maioria descendente dos pioneiros do Vêneto, esse patrimônio segue de pé.
O valor histórico é reconhecido em nível nacional. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), as casas foram tombadas e integram os Roteiros Nacionais de Imigração. O instituto considera o conjunto excepcional, praticamente o único do gênero na América Latina construído inteiramente em pedra e barro pelos colonos italianos.
O que fazer em Nova Veneza?
A cidade concentra suas atrações em poucas quadras, o que torna o passeio a pé quase obrigatório. Muitos pontos ficam em volta da praça central. Confira alguns dos destaques:
- Gôndola Lucille: a embarcação veneziana original em seu espelho d’água, no coração da cidade, aberta para fotos e contemplação.
- Casas de Pedra da Família Bratti: conjunto tombado pelo IPHAN, com visita guiada que explica os hábitos dos primeiros colonos italianos.
- Igreja Matriz São Marcos: templo de 1912 com sinos e relógio importados de Turim e uma escultura em bronze do Leão de São Marcos doada pelo Vêneto.
- Museu do Imigrante: acervo que conta a saga das cerca de 400 famílias que fundaram a Colônia Nuova Venezia em 1891.
- Aguaí Santuário Ecológico: reserva particular em meio à Mata Atlântica, com trilhas e cachoeiras a poucos quilômetros do centro.
Na mesa, a herança italiana domina: massas artesanais, polenta, galeto, queijos e vinhos coloniais produzidos na própria cidade. Cafés e cantinas rústicas completam o roteiro, muitos abastecidos por cooperativas de agricultura familiar da região.
Quem quer sentir um pedaço da Itália em Santa Catarina vai curtir este vídeo de Beatriz Fontana, com mais de 13 mil views, que traz roteiro, preços e dicas de Nova Veneza.
Como é o clima em Nova Veneza durante o ano?
O clima de Nova Veneza é subtropical, com quatro estações bem definidas e chuvas distribuídas ao longo do ano. O verão é quente e úmido, enquanto o inverno traz o friozinho de serra que combina com a cozinha e o vinho da cidade. Veja o comportamento das estações abaixo:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições podem variar de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña.
Como chegar a Nova Veneza
Nova Veneza fica a cerca de 18 km de Criciúma e a aproximadamente 220 km de Florianópolis, no extremo sul catarinense. O acesso mais usado é de carro, pelas rodovias que ligam a região ao litoral e à capital, com viagem de cerca de três horas partindo de Florianópolis. A proximidade de Criciúma facilita a chegada de quem já está no sul do estado.
A cidade que guardou a Itália inteira
Nova Veneza mostra como uma pequena colônia pode preservar uma cultura por mais de um século sem deixá-la virar peça de museu. A gôndola na praça, o dialeto nas conversas e a polenta na mesa continuam vivos no dia a dia de quem descende dos primeiros imigrantes.
Vale conhecer Nova Veneza e caminhar pela praça onde a gôndola flutua, provar a cozinha da nonna e entender por que essa cidade catarinense se tornou a capital da gastronomia italiana no Brasil.
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