A Capital Nacional do Agroturismo por lei federal: a cidade italiana das montanhas capixabas onde o socol cura por meses e a polenta vira festa
Famílias rurais transformaram o cotidiano do campo em experiência turística
Poucas cidades brasileiras transformaram a rotina do campo em atração nacional com tanta naturalidade. Nas montanhas do Espírito Santo, Venda Nova do Imigrante abriu as porteiras de suas propriedades rurais e virou o berço do agroturismo no país. A herança dos imigrantes italianos está no sotaque, na mesa e num embutido que só pode levar esse nome se nascer ali.
Por que Venda Nova do Imigrante é a Capital Nacional do Agroturismo?
O título é oficial e veio por lei federal. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o reconhecimento como pioneira do turismo no campo foi consagrado pela Lei Federal nº 14.636, sancionada em 2024, décadas depois de a cidade ter estruturado o modelo que hoje serve de referência para o Brasil.
A ideia é simples e transformadora: em vez de esvaziar o campo, a cidade convidou o visitante a entrar nele. Segundo a Secretaria de Turismo do Espírito Santo, dezenas de propriedades rurais familiares abrem as portas para mostrar a produção artesanal de queijos, cafés especiais, doces, licores e embutidos, unindo agricultura, gastronomia e memória num só passeio.

O que é o socol e por que ele só existe em Venda Nova?
O socol é um embutido de lombo suíno curado de forma artesanal por meses, receita que os imigrantes trouxeram da região do Vêneto, no norte da Itália. A carne é temperada, curada e armazenada sem conservantes, seguindo o mesmo método dos antepassados. O resultado é uma iguaria de sabor intenso que se tornou símbolo da cidade.
O que torna o socol único não é só a receita, mas a proteção legal do nome. Em 2018, o produto recebeu a Indicação Geográfica (IG) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o mesmo tipo de selo que protege o champanhe francês e o queijo parmesão. A certificação delimita as localidades do município onde vivem os descendentes de italianos que mantêm a tradição, garantindo origem e qualidade.

A herança italiana que moldou cada canto da cidade
A história começou com o esvaziamento das grandes fazendas e a chegada de famílias italianas em busca de recomeço, ainda no fim do século XIX. Isoladas pela geografia montanhosa, essas famílias precisaram produzir quase tudo em casa: queijos, vinhos, pães, massas e doces. Até meados do século XX, boa parte da população falava apenas o dialeto vêneto. Hoje o município reúne 23.831 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), muitos deles descendentes diretos daqueles pioneiros.
Esse espírito comunitário deixou marcas concretas. Os primeiros quilômetros de estrada foram abertos em mutirão, e a chegada da BR-262, em 1957, conectou a cidade a Vitória e ao restante do país, atraindo os primeiros curiosos que queriam ver de perto a vida no campo. Foi dessa curiosidade que nasceu o agroturismo. O próprio nome da cidade vem de uma antiga mercearia, a venda, que ao ser reformada virou a venda nova do lugar.

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O que fazer em Venda Nova do Imigrante?
A cidade é feita para ser percorrida com calma, de fazenda em fazenda, entre montanhas e mesas fartas. Muitos passeios ficam a poucos minutos do centro. Confira alguns dos destaques:
- Fazendas de agroturismo: propriedades familiares abertas à visitação, com degustação de socol, queijos, cafés especiais e doces coloniais feitos em tachos de cobre.
- Festa da Polenta: criada em 1978 pelo padre Cleto Caliman, celebra a cultura italiana em outubro com música, comida típica e o famoso tombo da polenta em um tacho gigante.
- Fazenda Pindobas: o primeiro distrito turístico do Espírito Santo, criado em 2024, reúne cerca de vinte empreendimentos rurais abertos ao público.
- Parque Estadual da Pedra Azul: a poucos quilômetros, na vizinha Domingos Martins, guarda a rocha que muda de cor conforme a luz do dia e trilhas com piscinas naturais.
- Cachoeiras do Alto Caxixe: quedas d’água entre a mata das montanhas capixabas, ideais para banho e contemplação.
Na mesa, a cozinha é puro interior italiano: polenta com queijo, galinha caipira ensopada, massas frescas feitas à mão, pães de fermentação natural e o socol fatiado fino. Cantinas rústicas e cafés coloniais funcionam em antigas casas de imigrantes adaptadas para receber o visitante.
Quem sonha em vivenciar o turismo rural no Espírito Santo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 835 mil visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra a cultura e tradições de Venda Nova do Imigrante:
Como é o clima em Venda Nova do Imigrante durante o ano?
O clima da cidade é tropical de altitude, ameno o ano inteiro e mais fresco nas noites da serra. O verão concentra as chuvas, enquanto o inverno seco traz o friozinho de montanha que combina com massa e vinho. Veja o comportamento das estações abaixo:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições podem variar de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña.
Como chegar a Venda Nova do Imigrante
Venda Nova do Imigrante fica a cerca de 110 km de Vitória, com acesso principal pela BR-262, sentido Minas Gerais, a mesma rodovia que corta a cidade. A viagem de carro leva em torno de duas horas, e há saídas diárias de ônibus a partir da capital capixaba. A localização, entre a serra e o litoral, faz dela um ponto natural de parada para quem cruza as montanhas do estado.
A cidade que fez do campo um convite
Venda Nova do Imigrante guarda uma das histórias mais saborosas do interior brasileiro. A mesma comunidade que precisou produzir tudo em casa transformou essa necessidade em vocação e ensinou o país a receber o visitante dentro da própria fazenda.
Vale subir a serra capixaba e conhecer Venda Nova do Imigrante, provar o socol curado por meses e entender por que uma cidade de raízes italianas virou a capital do agroturismo no Brasil.
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