Os moradores estão envelhecendo. Seu prédio também
Um condomínio preparado precisa de um plano permanente para cuidar dos moradores idosos
O envelhecimento da população brasileira vai produzir uma transformação silenciosa dentro dos condomínios. Cada vez mais pessoas vão chegar aos 60, 70, 80 anos permanecendo nos apartamentos onde construíram suas vidas. E existe um segundo envelhecimento acontecendo no mesmo endereço: o do próprio edifício.
Por isso, falar em condomínio preparado para o futuro não significa apenas instalar uma rampa de acessibilidade. Significa criar um plano permanente para cuidar de pessoas +60 e prédios +20, +30 ou +40 anos.
O condomínio precisa começar pelo morador
O primeiro passo é mapear necessidades, sem invadir a privacidade de ninguém. O condomínio pode disponibilizar voluntariamente um cadastro de moradores que desejem informar necessidades especiais de mobilidade ou indicar contatos para situações de emergência.
Depois, é preciso olhar para o caminho que esse morador percorre todos os dias.
A entrada é segura? O piso fica escorregadio quando chove? Existem corrimãos onde são necessários? A iluminação é suficiente? Os números dos andares e placas podem ser lidos facilmente? Há locais de descanso? As portas são pesadas demais? O acesso à piscina, salão, academia e demais áreas comuns continua adequado para alguém com mobilidade reduzida?
São pequenas intervenções que podem representar enorme diferença entre independência e dependência.
Também vale criar um protocolo de emergência para moradores +60. Porteiros, zeladores e funcionários precisam saber como agir diante de uma queda, mal-estar ou pedido de socorro, quem acionar e quais informações podem ou não fornecer. Isso exige treinamento e procedimentos claros, não improvisação.
Tecnologia também pode ajudar. Controle de acesso mais simples, interfones acessíveis, boa iluminação automatizada, câmeras nas áreas comuns dentro dos limites legais e sistemas de comunicação mais fáceis podem aumentar segurança sem transformar o condomínio em um ambiente de vigilância sobre o idoso.
Mas existe outro paciente: o próprio prédio
Enquanto cuidamos dos moradores que envelhecem, precisamos fazer exatamente a mesma pergunta sobre a edificação: como está a saúde do nosso condomínio?
Um prédio de 30 anos não deveria ser administrado como um prédio de cinco.
A gestão precisa conhecer a idade e o estado dos seus principais sistemas. Elevadores, instalações elétricas, hidráulica, impermeabilizações, fachada, bombas, sistemas de incêndio, SPDA, portões, geradores, piscinas e equipamentos possuem ciclos de manutenção, modernização e substituição.
Em vez de esperar alguma coisa quebrar para aprovar uma despesa emergencial, o condomínio deveria possuir um Mapa de Envelhecimento do Edifício.
Para cada sistema, o síndico deveria saber: quando foi instalado, quando recebeu a última intervenção relevante, qual seu estado atual, quais manutenções são necessárias, quando provavelmente precisará ser modernizado ou substituído e quanto essa intervenção poderá custar.
Isso transforma manutenção preventiva em planejamento patrimonial.
Inspeção predial não pode acontecer somente quando aparece um problema
Edifícios mais antigos precisam de avaliação técnica periódica realizada pelos profissionais legalmente habilitados adequados a cada situação. Patologias de fachada, infiltrações, corrosão, instalações elétricas antigas, vazamentos, falhas de impermeabilização e equipamentos chegando ao fim de sua vida útil raramente surgem de uma hora para outra.
O problema geralmente estava dando sinais.
Por isso, além das rotinas obrigatórias e recomendadas de manutenção, a administração pode construir um plano de atualização para os próximos cinco ou dez anos.
Se os elevadores precisarão de modernização daqui a quatro anos, isso entra no planejamento agora. Se a impermeabilização está chegando ao fim de seu ciclo, o condomínio começa a provisionar recursos. Se o sistema elétrico não acompanha mais a demanda criada por ar-condicionado, carros elétricos e novos equipamentos, estuda-se a atualização antes de simplesmente ampliar cargas.
O fundo de obras deixa de ser uma reserva genérica e passa a responder a um planejamento técnico.
E os dois assuntos precisam conversar
Aqui está talvez a mudança mais importante.
Não faz sentido modernizar um hall sem pensar em acessibilidade. Trocar elevadores sem considerar usuários com mobilidade reduzida. Reformar piscina sem analisar acesso seguro. Substituir iluminação sem avaliar áreas de circulação utilizadas por idosos. Modernizar o controle de acesso criando uma tecnologia impossível de ser utilizada por parte dos moradores.
Toda grande reforma deveria passar por duas perguntas: o que este prédio precisará nos próximos anos e quem estará usando este prédio nos próximos anos?
É assim que nasce um verdadeiro Plano de Longevidade Condominial.
Ele pode reunir quatro frentes: diagnóstico técnico do edifício, diagnóstico de acessibilidade e segurança, planejamento de modernizações e investimentos e protocolo de cuidado e emergência para moradores +60.
Não estamos falando em transformar o condomínio em hospital ou casa de repouso. O síndico não substitui médico, cuidador ou família.
Estamos falando de gestão.
Durante décadas administramos condomínios olhando principalmente para orçamento, manutenção e patrimônio. O envelhecimento da população acrescenta uma nova variável: precisaremos administrar também a longevidade daquele lugar.
Porque existe uma diferença enorme entre um prédio simplesmente ficar velho e um condomínio estar preparado para envelhecer.
Moradores envelhecem. Prédios envelhecem. Gestão inteligente é preparar os dois para continuarem funcionando bem juntos.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
Leia também: Como se dar bem com seu vizinho sem precisar gostar dele
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)