Capital do Calçado Feminino por lei: a cidade paulista que faz 120 mil pares por dia e concentra o maior serviço de transplante de medula do país
A indústria calçadista movimenta fábricas, empregos e comércio no município
Quando o café perdeu força no centro do estado de São Paulo, as cidades que viviam do grão precisaram escolher um novo destino. Jaú, a 296 km da capital paulista, apostou nas oficinas de sapato abertas por imigrantes italianos e transformou o improviso em identidade nacional. Hoje o município reúne um parque industrial reconhecido por lei estadual, um centro hospitalar que recebe pacientes de todo o Brasil e um centro histórico erguido no auge da riqueza cafeeira.
O que garante à cidade o título de Capital do Calçado Feminino?
O apelido tem respaldo jurídico. Segundo a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), o município é oficialmente a Capital Estadual do Calçado Feminino desde dezembro de 2021, por meio da Lei Estadual nº 17.476. A estimativa citada pelo próprio Legislativo paulista aponta produção diária entre 112 mil e 120 mil pares, com cerca de 10 mil postos de trabalho ligados a mais de 130 empresas do ramo instaladas na cidade.
Para efeito de comparação, esse volume diário equivale a calçar, em um único dia de expediente, uma população do tamanho de um município de médio porte inteiro. A concentração de fábricas criou também um destino de compras: o Território do Calçado, corredor de lojas de fábrica na zona industrial, atrai lojistas e visitantes de outros estados durante o ano todo. O interior paulista tem outros casos parecidos de vocação industrial que virou marca, como a cidade que fabrica ônibus rodando em mais de 140 países.

Como o dinheiro do café construiu o centro histórico jauense?
A cidade nasceu de uma pescaria. Bandeirantes que desciam o Rio Tietê fisgaram um peixe grande da espécie jaú na foz de um ribeirão, e o nome pegou no povoado formado em 1853. A terra roxa fértil fez o resto: em poucas décadas, a produção de café colocou o município entre os mais ricos do estado.
Essa fortuna virou pedra e argamassa. De acordo com a Prefeitura de Jahu, o centro guarda mais de 350 prédios históricos erguidos nos anos áureos do café, entre eles a Catedral de Nossa Senhora do Patrocínio, inaugurada em 1901 em estilo neogótico alemão. O Governo do Estado de São Paulo registra 440 casarões de alto padrão protegidos por lei municipal e inclui a cidade na região turística Caminhos do Tietê, formada por 12 municípios banhados pelo rio.
Por que pacientes de todo o Brasil desembarcam no interior paulista?
A resposta atende pelo nome de Hospital Amaral Carvalho. Conforme a Fundação Doutor Amaral Carvalho, a instituição nasceu em 1915 como uma maternidade, a partir da doação de um terreno feita por um casal de filantropos, e hoje é o maior transplantador de medula óssea do Brasil, com mais de 4 mil transplantes realizados.
O serviço tem uma engrenagem discreta por trás do número. O hospital mantém casas de apoio que oferecem hospedagem e alimentação gratuitas a quem chega de outros estados e não teria como custear semanas de acompanhamento médico. Some a isso o Hemonúcleo Regional de Jaú, criado em 1994, que abastece de sangue e plaquetas dezenas de hospitais da região e dá retaguarda aos procedimentos de alta complexidade.
Onde a cidade guarda a memória do voo que cruzou o Atlântico Sul?
Na praça central e no museu municipal. Um filho da terra, o aviador João Ribeiro de Barros, liderou em 28 de abril de 1927 a travessia do Atlântico Sul em voo sem escala a bordo do hidroavião Jahu, segundo a Prefeitura de Jahu, acompanhado dos copilotos Arthur Cunha e João Negrão, do navegador Newton Braga e do mecânico Vasco Cinquini. Ele tinha 27 anos.
Quem visita o município encontra esse passado espalhado entre praças, igrejas e áreas verdes. Confira abaixo alguns pontos que resumem a cidade:
- Território do Calçado: corredor de lojas de fábrica na zona industrial, com preço direto do fabricante e movimento de compradores o ano inteiro.
- Catedral de Nossa Senhora do Patrocínio: templo neogótico inaugurado em 1901, o edifício mais imponente do centro histórico.
- Museu Municipal: acervo dedicado à história local e à trajetória do aviador que cruzou o oceano em 1927.
- Praça Siqueira Campos: monumento a João Ribeiro de Barros em frente à igreja matriz, palco do ato cívico anual da cidade.
- Caminhos do Tietê: roteiro regional que reúne 12 municípios às margens do rio, com passeios náuticos e paisagem ribeirinha.
Quem quer conhecer o lado que fez de Jaú a Capital do Calçado Feminino vai curtir este vídeo do canal Livre como vento, com mais de 246 mil inscritos, que visita o Território do Calçado.
Como é o clima de Jaú ao longo do ano?
A cidade fica a 541 metros de altitude, no clima tropical de altitude típico do centro paulista: verões quentes e chuvosos, invernos secos e amenos. Veja abaixo o comportamento aproximado das estações:
Valores aproximados. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada no Climatempo antes de viajar.
A cidade que trocou o café pelo sapato sem perder o ritmo do interior
Poucos municípios brasileiros conseguem reunir um título industrial garantido em lei, um hospital de referência nacional e um centro histórico com centenas de casarões preservados. Em Jaú, essas três camadas convivem em ruas largas, arborizadas e a uma distância confortável da capital.
Você precisa conhecer Jaú e sentir o pulso de uma cidade que calça o Brasil inteiro sem abrir mão da calma de quem mora no interior.
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