Ondas de até 100 metros atravessam o Estreito de Gibraltar sem formar muralhas na superfície, e durante alguns instantes um satélite consegue enxergar o que está acontecendo lá embaixo
Grandes perturbações entre camadas de água deixam apenas pequenas assinaturas na superfície que podem ser detectadas do espaço
No Estreito de Gibraltar, ondas gigantes podem atravessar o oceano praticamente escondidas. Elas não levantam muralhas de água como um tsunami porque se propagam principalmente entre camadas de densidades diferentes, dezenas de metros abaixo da superfície. Algumas ondas internas da região podem alcançar amplitudes próximas de 100 metros e, ainda assim, produzir no alto apenas mudanças discretas na rugosidade da água, suficientes para serem detectadas do espaço.
Como as ondas internas conseguem atingir quase 100 metros sem aparecer na superfície?
Essas ondas não se propagam principalmente na interface entre água e atmosfera. Elas se desenvolvem dentro do próprio oceano, em uma região onde duas massas de água com densidades diferentes se encontram. No Estreito de Gibraltar, água atlântica relativamente menos salgada entra pelo nível superior enquanto água mediterrânea, mais salgada e densa, segue em direção ao Atlântico em profundidade.
A NASA registra ondas internas na região com alturas que podem chegar a aproximadamente 100 metros. Isso significa deslocamento vertical da interface entre as camadas, e não uma parede de água de 100 metros elevando-se acima do nível do mar. Na superfície, a variação de altura pode ser extremamente pequena.
O que gera essas ondas internas no Estreito de Gibraltar?
Um elemento fundamental é o Camarinal Sill, uma elevação submarina que restringe o fluxo no estreito. Conforme as marés movimentam enormes volumes de água sobre essa barreira, a interface entre as camadas é perturbada. Quando as condições são adequadas, essa perturbação se transforma em grandes ondas que seguem principalmente para leste, em direção ao Mediterrâneo.
O processo envolve:
- Água atlântica relativamente menos salgada entrando na camada superior.
- Água mediterrânea mais salgada e densa saindo pela camada inferior.
- Marés deslocando as duas massas sobre o relevo submarino.
- Formação de perturbações na interface entre as camadas.
- Propagação de grandes ondas abaixo da superfície.
Este vídeo produzido pelo Grupo de Oceanografia Física da Universidade de Málaga mostra, por meio de uma simulação numérica, como essas ondas são geradas e se propagam pelo Estreito de Gibraltar.
Por que as ondas internas quase não alteram a altura do mar?
A maior deformação acontece na fronteira interna entre massas de água, situada aproximadamente a dezenas de metros de profundidade. Imagine uma superfície invisível dentro do oceano subindo e descendo enquanto a superfície externa permanece quase plana. É nessa interface que o deslocamento vertical pode alcançar proporções impressionantes.
Mesmo sem criar grandes ondas visíveis, o fenômeno gera correntes horizontais próximas à superfície. Essas correntes podem concentrar materiais e modificar pequenas ondulações provocadas pelo vento, criando faixas com rugosidade ligeiramente diferente ao redor das cristas das ondas profundas.
Como um satélite consegue enxergar ondas internas escondidas?
Satélites equipados com radar de abertura sintética, conhecido como SAR, conseguem detectar diferenças muito pequenas na textura da superfície oceânica. A Agência Espacial Europeia já registrou conjuntos de ondas formando grandes arcos semicirculares a leste do estreito, apesar de a maior parte da movimentação ocorrer em profundidade
.| Característica | No Estreito de Gibraltar |
|---|---|
| Altura interna | Pode se aproximar de 100 metros |
| Profundidade da interface | Em torno de 100 metros em registros da NASA |
| Efeito superficial | Pequena mudança na rugosidade da água |
| Detecção | Fotografia em sunglint e radar SAR |
Fotografias feitas da Estação Espacial Internacional também conseguiram revelá-las graças ao chamado sunglint, o reflexo concentrado da luz solar na superfície do mar. Pequenas diferenças de rugosidade alteram esse brilho e fazem padrões invisíveis a um observador comum aparecerem claramente nas imagens.
Por que as ondas internas aparecem apenas em condições específicas nas imagens?
Não é a onda profunda propriamente dita que o sensor observa. O que aparece é sua assinatura superficial. No caso das imagens em luz visível, a geometria entre Sol, oceano e observador precisa estar favorável para que pequenas variações de textura modifiquem o reflexo da luz de maneira perceptível.
A NASA documentou esse fenômeno em imagens do Estreito de Gibraltar, explicando que astronautas conseguiam visualizar determinados padrões durante apenas alguns segundos enquanto a estação atravessava a posição ideal. Sensores de radar possuem outra vantagem, pois detectam diretamente alterações na rugosidade superficial.

O que as ondas internas revelam sobre o oceano que não conseguimos ver?
As ondas internas mostram que o oceano possui uma dinâmica muito maior do que aquela indicada por sua superfície. Duas áreas aparentemente tranquilas podem esconder deslocamentos verticais enormes, correntes intensas e interações entre massas de água com salinidade e densidade diferentes.
No Estreito de Gibraltar, esse processo também faz parte da complexa troca de água entre Atlântico e Mediterrâneo. É um exemplo particularmente impressionante de como uma onda comparável à altura de um grande edifício pode atravessar o mar sem surgir como uma montanha líquida diante de um navio.
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