Reforma remove marco antigo da divisa e vizinhos passam a discordar sobre onde novo muro deve ser construído
A coluna desapareceu em poucos minutos, mas 30 anos de uso deixaram um rastro que pode pesar mais do que a medida tomada a partir da calçada.
Um marco de divisa removido durante a passagem de uma máquina pode transformar poucos centímetros em disputa sobre propriedade. A coluna de concreto separava os terrenos havia mais de 30 anos, mas seu desaparecimento não autoriza nenhum vizinho a escolher sozinho onde o novo muro ficará.
A coluna antiga definia juridicamente a divisa?
Ela constitui uma prova física importante, sobretudo se foi respeitada por décadas, alinhava-se a cercas e construções e havia sido colocada com concordância dos antigos proprietários. Entretanto, uma coluna pode ter servido apenas como apoio ou ter sido instalada fora da linha documental.
O artigo 1.297 do Código Civil permite exigir a demarcação, avivar rumos apagados e renovar marcos destruídos. A reconstrução deve resultar do conjunto de títulos, medições e histórico da ocupação, não da lembrança isolada de uma das partes.

Qual documento deve orientar a nova medição?
As matrículas atualizadas dos dois imóveis são o ponto inicial. Também devem ser examinados registros anteriores, escrituras, planta do loteamento, memoriais, projetos aprovados e descrições dos confrontantes, porque documentos antigos podem empregar referências imprecisas ou já desaparecidas.
Cadastro municipal, IPTU, imagens aéreas e plantas de obras são elementos auxiliares, mas não substituem o título nem fixam sozinhos a propriedade. Se duas matrículas reivindicarem a mesma faixa ou deixarem uma sobra, o problema pode exigir retificação registral.
O novo muro pode ser construído enquanto existe divergência?
Construir unilateralmente cria risco de invasão, paralisação e demolição posterior. Se houver necessidade de fechar os quintais, os vizinhos podem combinar uma barreira temporária, registrando por escrito que ela não representa reconhecimento definitivo da linha.
O local original da coluna deve ser fotografado antes que a obra altere o solo. Fragmentos, fundação remanescente, marcas em pisos, muros antigos e pontos alinhados na frente e no fundo podem ajudar o levantamento.
Quais provas devem ser entregues ao responsável técnico?
O ideal é que ambos forneçam seus documentos ao mesmo profissional ou permitam levantamentos comparáveis. Quatro grupos ajudam a evitar uma medição limitada à versão de apenas um proprietário:
Como o levantamento topográfico deve ser realizado?
Não basta medir a frente do lote a partir de um ponto escolhido na calçada. O profissional habilitado deve conferir laterais, fundo, ângulos, fechamento da área, alinhamentos permanentes e compatibilidade entre os dois imóveis e o parcelamento original.
O trabalho deve produzir planta, memorial descritivo, fotografias e documento de responsabilidade técnica. A Lei de Registros Públicos prevê planta e memorial assinados por profissional habilitado quando a retificação envolve medidas perimetrais, além da participação ou notificação dos confrontantes.
Quais caminhos existem depois da medição?
A solução depende da compatibilidade entre documentos, ocupação antiga e resultado de campo:
Os 30 anos de uso resolvem a disputa?
Não automaticamente. A ocupação contínua até a coluna pode influenciar a prova da posse e eventual discussão de usucapião, mas exige requisitos próprios. Quando os limites permanecem confusos, o artigo 1.298 considera a posse justa antes de soluções subsidiárias.
Em ação judicial, o Código de Processo Civil determina que a perícia considere títulos, marcos, rumos, informações de antigos moradores e outros elementos. Assim, a coluna antiga não é ignorada, mas também não decide isoladamente.
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Quem paga a nova demarcação e a correção do problema?
O Código Civil prevê divisão proporcional das despesas ordinárias de demarcação e renovação dos marcos. Entretanto, se a máquina destruiu a referência por negligência identificável, o responsável pela obra pode ser cobrado pelos custos adicionais de levantamento e recomposição comprovados.
Antes do muro definitivo, o acordo deve indicar coordenadas ou referências estáveis, posição da parede, espessura, propriedade, custos e manutenção. Sem consenso, orientação jurídica e topográfica local ajuda a preservar a faixa discutida e escolher entre retificação registral e ação demarcatória.
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