Graças a um órgão respiratório especializado, um peixe consegue retirar oxigênio diretamente do ar e sobreviver fora da água por períodos incomuns
Uma câmara respiratória acima das brânquias permite aos peixes do gênero Channa captar oxigênio do ar e suportar ambientes extremos
À primeira vista, ele parece apenas mais um peixe predador de água doce, mas sua fisiologia permite algo incomum entre os peixes. O peixe-cabeça-de-cobra (Channa) possui estruturas respiratórias acessórias acima das brânquias que permitem captar oxigênio atmosférico, sobreviver em águas muito pobres em oxigênio e, em condições favoráveis, permanecer algum tempo completamente fora da água.
Como o peixe-cabeça-de-cobra consegue respirar diretamente o ar?
Espécies do gênero Channa possuem uma câmara suprabranquial localizada acima das brânquias. Ao subir à superfície, o peixe engole ar e o conduz até essa região altamente vascularizada, onde o oxigênio passa para o sangue. As brânquias continuam importantes, mas deixam de ser a única fonte possível de oxigênio.
No Channa argus, o cabeça-de-cobra-do-norte, a respiração aérea é tão importante que o peixe consegue ocupar lagoas rasas, pântanos e canais onde a concentração de oxigênio dissolvido seria problemática para muitas outras espécies. Alguns cabeças-de-cobra são considerados respiradores aéreos obrigatórios e precisam visitar regularmente a superfície.
O que permite que esse peixe continue vivo quando sai da água?
Sobreviver no ar depende de muito mais do que simplesmente possuir uma espécie de “pulmão”. O órgão suprabranquial precisa permanecer úmido para que a troca gasosa continue funcionando, e o próprio metabolismo do peixe pode diminuir durante a exposição aérea, reduzindo temporariamente sua necessidade de oxigênio.
Entre os fatores envolvidos estão:
- Câmara suprabranquial especializada na respiração aérea.
- Superfícies respiratórias mantidas úmidas.
- Redução temporária da atividade metabólica.
- Capacidade de tolerar condições com pouco oxigênio.
- Produção abundante de muco que ajuda a diminuir a perda de água.
Este vídeo da National Geographic mostra diretamente o cabeça-de-cobra-do-norte, sua capacidade de sobreviver fora da água e os problemas provocados pela espécie quando introduzida em novos ambientes.
Quanto tempo o peixe-cabeça-de-cobra realmente consegue sobreviver fora da água?
A afirmação de que qualquer cabeça-de-cobra passa “dias caminhando em terra” precisa de cuidado. O tempo varia conforme espécie, tamanho, temperatura, umidade e nível de atividade. Experimentos com Channa argus mostraram que temperaturas mais elevadas e esforço físico reduzem significativamente o período de sobrevivência fora da água.
O Smithsonian registra que juvenis do cabeça-de-cobra-do-norte podem permanecer vivos por até quatro dias fora da água quando as condições ajudam a evitar o ressecamento. Isso não significa quatro dias viajando continuamente pelo solo: a capacidade locomotora terrestre é limitada e costuma ser exagerada em representações populares.
Como o órgão suprabranquial funciona durante cada respiração?
Quando o peixe sobe à superfície, movimentos da boca, faringe e opérculos ajudam a renovar o ar dentro da câmara respiratória. Estudos observaram que o gás presente no órgão pode ser quase completamente substituído a cada ciclo respiratório quando o animal está na água e utiliza simultaneamente respiração aquática e aérea.
| Condição | Resposta do peixe |
|---|---|
| Água pobre em oxigênio | Aumenta o uso do ar atmosférico |
| Fora da água | Mantém respiração aérea enquanto permanece úmido |
| Temperatura elevada | Sobrevivência aérea tende a diminuir |
| Exercício intenso | Demanda metabólica aumenta |
Essa capacidade é considerada respiração bimodal: o animal utiliza tanto a água quanto o ar, adaptando a proporção conforme o ambiente. Pesquisas mostram ainda que alterações fisiológicas no transporte de oxigênio e no metabolismo participam da sobrevivência aérea.
Por que o peixe-cabeça-de-cobra se tornou invasor em outros países?
O problema aparece quando espécies são introduzidas fora de sua distribuição natural. O Channa argus, nativo do leste da Ásia, estabeleceu populações reprodutivas nos Estados Unidos e consegue ocupar ambientes aquáticos variados, incluindo áreas rasas, vegetadas e pobres em oxigênio.
Além da tolerância ambiental, é um predador e apresenta boa capacidade reprodutiva. O U.S. Fish & Wildlife Service considera a espécie invasora e potencialmente prejudicial a peixes nativos e ecossistemas. Sua respiração aérea não é a única razão para o sucesso, mas amplia os ambientes que consegue utilizar.

Todos os peixes-cabeça-de-cobra conseguem se deslocar por terra?
O gênero reúne várias espécies, e não é correto atribuir a todas exatamente a mesma capacidade. Alguns indivíduos conseguem se contorcer sobre superfícies úmidas usando movimentos do corpo e das nadadeiras, o que pode permitir pequenos deslocamentos entre áreas aquáticas próximas.
Isso está longe da imagem de um peixe “andando” normalmente por quilômetros. Adultos grandes podem apresentar mobilidade terrestre limitada, enquanto juvenis conseguem deslocar-se melhor. A verdadeira adaptação extraordinária está na respiração: enquanto a maioria dos peixes rapidamente perde a capacidade de obter oxigênio fora da água, algumas espécies de Channa conseguem continuar respirando desde que seu aparelho respiratório não resseque.
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