Filmaram um peixe-caracol a 8.336 metros de profundidade, e a pressão ajuda a explicar por que nenhum peixe conhecido parece conseguir viver muito abaixo dos 8.400 metros
O recorde registrado em uma fossa japonesa fica próximo do limite bioquímico previsto para peixes submetidos às maiores pressões do oceano
No fundo de uma fossa oceânica próxima ao Japão, pesquisadores registraram um peixe-caracol abissal nadando a 8.336 metros, estabelecendo o maior registro visual de profundidade para um peixe. O animal vive perigosamente perto de uma fronteira fisiológica intrigante, porque a pressão crescente parece tornar a vida dos vertebrados cada vez mais difícil abaixo de aproximadamente 8.400 metros.
Como um peixe-caracol abissal foi filmado a 8.336 metros?
O registro ocorreu na fossa Izu-Ogasawara, no noroeste do Pacífico. Durante uma expedição científica, câmeras e equipamentos autônomos foram enviados a profundidades que chegaram a 9.773 metros. Peixes-caracol apareceram entre 6.824 e 8.336 metros, sendo o indivíduo mais profundo um único juvenil.
Como o exemplar filmado a 8.336 metros não foi capturado, sua espécie não pôde ser confirmada. Os pesquisadores consideram que ele provavelmente pertencia a Pseudoliparis belyaevi ou a uma espécie endêmica ainda não descrita. Em uma fossa próxima, dois P. belyaevi foram capturados a 8.022 metros, atual recorde de profundidade para peixes fisicamente coletados.
O que permite ao peixe-caracol abissal suportar uma pressão tão extrema?
A pressão hidrostática aumenta rapidamente conforme a profundidade. Próximo dos 8 quilômetros, um peixe precisa manter membranas, enzimas e proteínas funcionando sob condições que poderiam alterar estruturas celulares essenciais. Os peixes hadal desenvolveram várias adaptações bioquímicas para enfrentar esse ambiente.
Entre as adaptações estudadas estão.
- Concentrações elevadas de TMAO nos tecidos.
- Alterações que ajudam a manter as membranas celulares funcionais.
- Proteínas adaptadas à elevada pressão.
- Esqueleto relativamente pouco mineralizado em espécies hadal.
- Mudanças genéticas relacionadas ao metabolismo e aos sentidos.
O vídeo do Guardian News mostra diretamente as imagens do peixe registrado a 8.336 metros na expedição realizada nas fossas japonesas e explica por que a observação estabeleceu um novo recorde de profundidade para peixes.
Por que o peixe-caracol abissal acumula uma substância chamada TMAO?
O trimetilamina N-óxido, conhecido pela sigla TMAO, funciona como um osmólito capaz de ajudar a estabilizar proteínas contra os efeitos da alta pressão. Estudos com diferentes peixes mostram que sua concentração nos músculos tende a aumentar conforme as espécies vivem em águas mais profundas.
Isso cria uma vantagem até certo ponto. Quanto mais profundo o peixe vive, maior pode ser sua necessidade de TMAO para proteger estruturas celulares. Ao mesmo tempo, acumular essa molécula modifica a concentração osmótica dos fluidos corporais, criando um possível problema fisiológico quando determinados valores são alcançados.
| Profundidade | O que foi registrado |
|---|---|
| 6.000 m | Início aproximado da zona hadal |
| 8.022 m | Peixes mais profundos já capturados |
| 8.336 m | Peixe mais profundo já filmado |
| 8.200–8.400 m | Faixa proposta para um limite fisiológico |
Existe realmente um limite para peixes próximo dos 8.400 metros?
Há fortes indícios, mas não uma barreira física absolutamente comprovada. Um estudo sobre peixes de grandes profundidades estimou que, aproximadamente entre 8.200 e 8.400 metros, a concentração de TMAO necessária faria os fluidos internos atingirem osmolaridade semelhante à da água do mar.
Ir muito além poderia exigir uma reorganização da maneira como esses peixes controlam água e sais em suas células. Essa hipótese coincide de maneira notável com as observações: peixes são encontrados até pouco acima de 8.300 metros, mas não foram documentados nas regiões mais profundas das fossas, que chegam perto de 11 quilômetros.

A pressão é a única responsável por impedir peixes de viver ainda mais fundo?
Provavelmente não é tão simples. Temperatura, disponibilidade de alimento, história evolutiva e condições específicas de cada fossa também influenciam onde uma espécie consegue sobreviver. A ausência de peixes abaixo de aproximadamente 8.400 metros, porém, coincide fortemente com o limite bioquímico previsto para o TMAO.
Pesquisas genômicas mostram ainda que peixes-caracol hadal apresentam numerosas adaptações relacionadas à pressão, visão, metabolismo e estrutura corporal. Portanto, não existe uma única característica responsável pelo recorde: trata-se de um conjunto de modificações evolutivas que permite a esses vertebrados ocupar um ambiente extremo.
O que vive abaixo do limite alcançado pelo peixe-caracol abissal?
A ausência de peixes não significa ausência de animais. Invertebrados conseguem ocupar regiões muito mais profundas das fossas oceânicas, incluindo anfípodes, pepinos-do-mar e outros organismos adaptados às pressões extremas existentes próximo aos maiores abismos do planeta.
O estudo científico sobre o recorde de 8.336 metros reforça como os peixes-caracol chegam extraordinariamente perto do limite teórico proposto para os vertebrados marinhos. O recorde pode ser superado por alguns metros no futuro, mas encontrar peixes milhares de metros abaixo dele exigiria rever parte importante do que hoje se conhece sobre sua fisiologia.
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