Aos 80 anos, Espedito Seleiro somava mais de 7 décadas no couro, levou o ofício do sertão à moda e manteve a tradição familiar
Mestre cearense transformou um saber aprendido na infância em linguagem própria, aproximando couro, design, moda e memória familiar.
Aos 80 anos, Espedito Seleiro já somava mais de sete décadas trabalhando com o couro no Cariri cearense. O ofício aprendido ainda menino atravessou a vida do artesão, ganhou novas formas, chegou à moda e permaneceu ligado à própria família em Nova Olinda.
Como o menino Espedito aprendeu o couro aos 8 anos?
Segundo a Secretaria de Cultura de Nova Olinda, Espedito Veloso de Carvalho nasceu em 1939 e aprendeu aos 8 anos, com o pai, o ofício de seleiro. Ainda criança, teve contato direto com a produção de selas e equipamentos usados por vaqueiros, tropeiros e outros personagens do sertão.
A mesma fonte registra que esse aprendizado não surgiu isolado. O conhecimento vinha sendo transmitido dentro da família havia gerações, e Espedito cresceu cercado pelas ferramentas, pelo couro e por uma rotina em que trabalho, sustento e cultura popular estavam profundamente ligados.

Como ele chegou aos 80 anos com mais de sete décadas no mesmo ofício?
Em 2019, o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará realizou a mostra “Espedito Seleiro: 80 anos de couro e alma”. A exposição reuniu aspectos da trajetória, das relações familiares, das técnicas e das transformações introduzidas pelo artesão.
A UFC destacou que Espedito construiu em Nova Olinda sua trajetória como mestre do couro e que tradição e inovação caminharam juntas em sua obra. Já em 2022, o Sebrae registrou que, aos 83 anos, ele continuava mantendo viva uma arte transmitida entre gerações.
Como o trabalho saiu da sela e chegou ao design e à moda?
A mudança ocorreu sem abandonar a base sertaneja. Segundo a UFC, Espedito passou a incorporar tingimentos, arabescos, novos moldes e cores ao couro, ampliando a produção para calçados, bolsas, vestuário e mobiliário. A instituição aponta os arabescos como uma marca importante de sua linguagem visual.
Esse repertório aproximou o artesão do universo do design e da moda. A mostra dos 80 anos reservou um núcleo justamente para essas interfaces, mostrando como um ofício ligado à sela e à proteção do vaqueiro passou a circular também em ambientes de criação contemporânea.
Alguns elementos ajudam a mostrar essa transformação:
Como a tradição atravessou gerações da família?
Segundo registros do Sesc Ceará, o conhecimento ligado ao couro atravessa cinco gerações da família de Espedito. A Secretaria de Cultura de Nova Olinda também informa que o mestre decidiu ensinar o ofício aos irmãos, depois aos filhos e, mais recentemente, aos netos.
A oficina tornou-se também um espaço de transmissão de saber. A tradição permaneceu em uso, adaptada por novas gerações e tratada não como uma lembrança parada no tempo, mas como parte de uma cultura viva.
Essa passagem entre gerações pode ser resumida assim:
Qual é o papel de Nova Olinda na história de Espedito Seleiro?
Nova Olinda não aparece apenas como endereço da oficina. Segundo o Sesc Ceará, a trajetória de Espedito se confunde com a história do município e do Cariri, onde sua memória permanece preservada no Museu do Ciclo do Couro.
O espaço reúne peças herdadas, máquinas históricas e registros de saberes transmitidos oralmente. Inaugurado em 2014, o museu conecta a oficina, a família e o território que ajudaram a formar a obra do artesão.
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Por que essa trajetória continua relevante para a cultura popular?
Segundo o Ministério da Cultura, em 2025 Espedito ainda participou de uma aula-espetáculo em Nova Olinda dedicada ao artesanato em couro, dentro de uma programação voltada à transmissão de saberes dos mestres da cultura da Chapada do Araripe.
Os 80 anos registrados em 2019 funcionam, assim, como medida de continuidade. Mais de sete décadas após o aprendizado infantil, o couro seguia conectando família, território, artesanato, design e cultura popular brasileira.
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