New York Times deixa de publicar cartuns políticos
Decisão veio após publicação de cartum considerado anti-semita.
A edição internacional do New York Times vai deixar de publicar cartuns políticos diários.
A decisão veio à tona nesta segunda (10) no blog do cartunista Patrick Chappatte e foi confirmada no mesmo dia pelo editor de opinião do jornal.
Our statement in response to ending daily political cartoons in the international edition of The New York Times. pic.twitter.com/FcagTxEZJ9
— NYTimes Communications (@NYTimesPR) June 10, 2019
Durante mais de 20 anos, Chappatte publicou dois cartuns por semana no jornal, começando quando ele ainda tinha o nome de International Herald Tribune. A publicação vai encerrar essa tradição em 1º de julho.
Entenda por que isso aconteceu e quais foram as repercussões.
1. O gatilho
Como muitos jornais, a edição internacional do New York Times publicava dois tipos de cartuns: os feitos por chargistas “da casa” e aqueles adquiridos por agências distribuidoras. Assim como acontece com agências de notícias, cartunistas oferecem seu trabalho a agências para que ele seja publicado em qualquer jornal que quiser comprar.
Em 25 de abril, o jornal publicou uma dessas charges de agência. De autoria do cartunista português António Moreira Antunes, ela mostra Donald Trump de óculos escuros e quipá, sendo conduzido por um cão-guia com o rosto de Benjamin Netanyahu. A coleira tem uma estrela de Davi. A reação foi imediata. O filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., chamou o cartum de “antissemita”.
Em nota editorial, o jornal admitiu que o cartum continha “elementos antissemitas”, que era ofensivo e que foi um erro publicá-lo.
O jornalista israelense Anshel Pfeffer disse que a imagem de Netanyahu como cão-guia de Trump teria sido “uma dura, mas justa representação do relacionamento”, mas o quipá e a estrela de Davi conduziam o cartum a território antissemita.
Nesta segunda (10), o jornal informou que considerava a decisão há mais de um ano. A controvérsia em abril acabou sendo o estopim.
2. A repercussão

A decisão do jornal de não publicar mais cartuns políticos diariamente foi duramente criticada por outros jornalistas e, claro, por cartunistas.
Patrick Chappatte, o primeiro a dar a notícia, entendeu que aquele cartum com Trump e Netanyahu “nunca deveria ter sido publicado no melhor jornal do mundo”. Ainda assim, condenou a decisão:
“Temo que isto não envolva apenas cartuns, mas jornalismo e opinião em geral. Estamos em um mundo no qual multidões moralistas se aglomeram nas mídias sociais e erguem-se como tempestades, desabando sobre redações em um golpe avassalador. Isso requer contramedidas imediatas por parte dos editores, sem deixar espaço para ponderação ou discussões significativas. O Twitter é um local de furor, não de debate. As vozes mais furiosas tendem a definir a conversa, e a multidão raivosa as segue.”
E termina o post em seu blog assim: “No mundo insano em que vivemos, a arte do comentário visual é mais necessária do que nunca. E o humor também”.

Em artigo para o Guardian, o cartunista Martin Rowson, que também não aprovou o cartum com o Trump cego, escreveu que cartuns “têm o poder de chocar e ofender”. E lembrou que é por isso que o cartunista turco Musa Kart está preso, o malaio Zunar foi preso, e a redação do Charlie Hebdo foi atacada em janeiro de 2015, em episódio que matou 12 pessoas.
Daryl Cagle, dono de uma agência de cartuns, foi mais direto ao ponto: “Ao escolher não publicar cartuns editoriais no futuro, o Times pode ter certeza de que seus editores nunca mais farão uma escolha ruim de cartum. Os editores do Times também já fizeram escolhas ruins de palavras. Eu sugiro que o Times também escolha não publicar palavras no futuro – só por segurança”.
3. Em cartuns
As melhores respostas, claro, vieram em cartuns.

Clay Jones retrata a administração do Times como uma galinha (do inglês chicken out, ou seja, “amarelar”). Ela diz ao cartunista enxotado: “Ah… e obrigado pelo Pulitzer”.

Joep Bertrams convida o leitor a achar a diferença entre a “abordagem ditatorial” (acima) e a “abordagem de esquerda” (embaixo).
Já Kevin Siers ilustrou o que ocorreria com o jornal se respondesse da mesma maneira aos críticos de suas reportagens e colunas:

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