A força invisível e colossal que está puxando nossa galáxia e milhares de outras para uma região escondida do Universo
Movimentos de galáxias revelaram uma enorme concentração gravitacional parcialmente escondida pelo próprio disco da Via Láctea
A Via Láctea não acompanha perfeitamente a expansão geral do Universo. Ela e suas vizinhas apresentam um movimento adicional de centenas de quilômetros por segundo, direcionado para uma região parcialmente escondida pelo plano galáctico. Durante décadas, esse comportamento transformou o Grande Atrator em um dos nomes mais intrigantes da astronomia moderna.
O que é o Grande Atrator que influencia o movimento da Via Láctea?
Apesar do nome, não existe evidência de um objeto único e invisível funcionando como um gigantesco ímã cósmico. O Grande Atrator descreve uma região de elevada concentração de matéria na direção das constelações de Centauro e Norma, aproximadamente entre 150 milhões e 250 milhões de anos-luz de nós.
Ali existem aglomerados e extensas estruturas de galáxias cuja gravidade altera o movimento esperado das galáxias próximas. O aglomerado de Norma é um dos componentes importantes dessa região, enquanto estruturas ainda mais distantes também participam do fluxo observado em nossa vizinhança cósmica.
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Como os astrônomos perceberam que alguma coisa estava alterando o movimento das galáxias?
Os astrônomos medem a expansão cósmica e comparam o movimento esperado de uma galáxia com sua velocidade observada. A diferença recebe o nome de velocidade peculiar e pode denunciar perturbações gravitacionais provocadas pela distribuição irregular de matéria em grandes escalas. Foi justamente esse tipo de análise que revelou fluxos convergentes na nossa região do Universo.
Alguns pontos ajudam a entender o fenômeno:
- A Via Láctea participa do movimento do Grupo Local.
- O Grupo Local apresenta uma velocidade peculiar em relação à radiação cósmica de fundo.
- Grandes concentrações de matéria alteram esses movimentos.
- O Grande Atrator representa parte dessa complexa distribuição gravitacional.
Neste vídeo em português, o SpaceToday explica o que os astrônomos chamam de Grande Atrator, onde essa região está localizada e por que seu efeito aparece no movimento das galáxias.
A velocidade do Grupo Local em relação à radiação cósmica de fundo fica na ordem de 600 quilômetros por segundo, equivalente a mais de 2 milhões de quilômetros por hora. Isso não significa, porém, que toda essa velocidade seja causada exclusivamente por um único atrator.
Por que o Grande Atrator fica justamente em uma região difícil de observar?
O problema está em nossa própria galáxia. Quando telescópios observam naquela direção, precisam olhar através do disco da Via Láctea, repleto de estrelas, gás e poeira. Essa faixa historicamente difícil para levantamentos extragalácticos recebeu o nome de Zona de Evitação.
Isso bloqueia principalmente observações em luz visível, mas não torna a região completamente invisível. Astrônomos utilizam infravermelho, ondas de rádio e raios X para investigar objetos escondidos atrás do plano galáctico, revelando aglomerados que os antigos levantamentos ópticos tinham dificuldade para detectar.
Como Laniakea mudou nossa compreensão desse gigantesco movimento cósmico?
Em 2014, pesquisadores mapearam as velocidades peculiares de milhares de galáxias e definiram uma enorme região de fluxo gravitacional chamada Laniakea, nosso superaglomerado local. O estudo mostrou galáxias seguindo padrões semelhantes a cursos d’água convergindo dentro de uma gigantesca bacia cósmica.
O estudo publicado na Nature estimou Laniakea com aproximadamente 160 megaparsecs de extensão, algo próximo de 520 milhões de anos-luz, e massa da ordem de 100 quatrilhões de massas solares. Nesse mapa, a região tradicionalmente associada ao Grande Atrator aparece como componente fundamental do fluxo local.
O Grande Atrator é realmente responsável sozinho por puxar nossa galáxia?
Não. Essa é uma das correções mais importantes da versão popular da história. Pesquisas posteriores mostraram que estruturas localizadas além da região tradicional do Grande Atrator, especialmente a Concentração de Shapley, também exercem influência significativa sobre os movimentos observados.
Isso transforma a ideia de uma força misteriosa concentrada em um ponto numa imagem simplificada. Na realidade, estamos observando a consequência gravitacional de uma rede tridimensional gigantesca, composta por aglomerados, superaglomerados, filamentos e vazios distribuídos por centenas de milhões de anos-luz.

Ainda existe algum mistério escondido atrás da Via Láctea?
Sim, mas hoje o mistério é diferente daquele sugerido pelas primeiras manchetes. Astrônomos já identificaram estruturas importantes naquela direção e dispõem de instrumentos capazes de observar através da poeira em comprimentos de onda que a atravessam. A região deixou de ser simplesmente um vazio invisível nos mapas.
Ainda assim, reconstruir completamente a distribuição de massa e explicar cada componente das velocidades peculiares continua sendo um desafio. Estudos recentes continuam encontrando grandes estruturas escondidas pela Zona de Evitação, reforçando a ideia de que nosso movimento resulta de uma paisagem gravitacional muito mais complexa do que um único objeto desconhecido.
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