PT promete de mais do mesmo: muito gasto sem responsabilidade fiscal
Programa de governo para quarto mandato de Lula aprofunda os desequilíbrios acumulados no terceiro
O PT apresentou para a candidatura à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva um plano de governo estruturado em treze capítulos temáticos. A economia ocupa formalmente o capítulo 8, mas a estratégia econômica se espalha por várias outras partes do documento — sobretudo Agro, Energia e Trabalho.
O capítulo econômico tem cinco pilares: crescimento e emprego; redução das desigualdades; inflação controlada e responsabilidade fiscal; neoindustrialização e transformação ecológica; e maior inserção internacional com preservação da soberania. A proposta para um eventual quarto mandato é elevar investimento e produtividade combinando atuação estatal, investimento privado, infraestrutura, crédito, política industrial, inovação e descarbonização.
Por que isso importa
Lula disputa a eleição com chances concretas de permanecer no Planalto. Na Genial/Quaest divulgada em 5 de agosto, aparece com 39% no primeiro turno, contra 30% de Flávio Bolsonaro. Num eventual segundo turno entre os dois, Lula marca 44% e Flávio, 39%. A AtlasIntel/Bloomberg de julho também havia colocado Lula na liderança, com 46,3% contra 36,6% no primeiro turno e 48,8% a 42,3% no segundo; em levantamento anterior da Atlas, em abril, os dois haviam aparecido empatados.
Importa saber, desse modo, se Lula propõe uma correção dos desequilíbrios acumulados no terceiro mandato ou pretende aprofundar a mesma estratégia econômica caso tenha mais quatro anos de governo.
Panorama
O terceiro mandato termina com resultados relevantes na atividade e no emprego. Depois de crescer 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, o PIB avançou 2,3% em 2025; no primeiro trimestre de 2026, cresceu outros 1,1% ante o trimestre anterior. A taxa de desemprego chegou a 5,4% no trimestre encerrado em junho, um patamar historicamente baixo.
Mas a lente fiscal produz uma fotografia bem menos favorável. A dívida bruta do governo geral, que terminou 2022 em 73,4% do PIB, chegou a 81,9% do PIB, ou 10,8 trilhões de reais, em junho de 2026. Somente nos seis primeiros meses deste ano, ela avançou 3,3 pontos do PIB. Os juros nominais do setor público consumiram o equivalente a 8,8% do PIB em doze meses, e o déficit nominal alcançou 9,99% do PIB.
O governo, além disso, tem recorrido a artimanhas para cumprir as metas fiscais. Como registrado pela Instituição Fiscal Independente (IFI) no início deste ano, a Lei Orçamentária de 2026 já previu R$ 230,7 bilhões em despesas fora do arcabouço.
O crescimento do gasto público e as múltiplas exceções às regras fiscais não produziram uma trajetória convincente de estabilização da dívida no segundo mandato de Lula.
Isso ajuda a entender por que o dinheiro continua caro no Brasil. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano em agosto. A taxa ainda é muito elevada e enquanto a percepção de risco fiscal não se alterar, haverá resistência à queda mais rápida e permanente dos juros reais.
Isso chega às empresas. A taxa de investimento foi de apenas 16,5% do PIB no primeiro trimestre de 2026, abaixo dos 17,6% registrados um ano antes. A Serasa Experian registrou 9 milhões de empresas inadimplentes em abril e 2,5 mil empresas ingressando em recuperação judicial ao longo de 2025, recorde da série histórica da instituição. Juros não explicam sozinhos esses números, mas crédito caro e restrito torna a situação de empresas endividadas mais difícil.
As propostas de Lula
O plano não responde a esse diagnóstico com uma mudança de direção. Propõe aprofundar a estratégia em vigor.
Na indústria, pretende reforçar o programa Nova Indústria Brasil e utilizar uma extensa caixa de ferramentas: financiamento direcionado, combinação entre crédito público e privado, compras governamentais, concessões, regulação, conteúdo local, margens de preferência e Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). A prioridade será dada a IA, digitalização, minerais críticos, Indústria 4.0 e setores de maior intensidade tecnológica.
No Agro, o mesmo modelo. Crédito rural e Plano Safra serão ampliados, ao mesmo tempo que o governo promete estimular mercado de capitais, mecanização, conectividade, Embrapa, biotecnologia, agregação de valor e abertura de mercados. A meta declarada é reduzir relativamente a primarização da pauta exportadora.
Na Energia, o encaixe com a política industrial é ainda maior. Renováveis, baterias, armazenamento, hidrogênio, biocombustíveis, petroquímica verde e fertilizantes devem formar novas cadeias industriais. Ao mesmo tempo, o plano mantém petróleo e gás no centro da segurança energética e prevê expansão do papel da Petrobras, inclusive em exploração, refino, distribuição, indústria naval e conteúdo local.
No Trabalho, aparece a contrapartida social da estratégia: valorização real do salário mínimo, qualificação profissional ligada às necessidades produtivas, combate à pejotização considerada fraudulenta, regulação do trabalho em plataformas, revisão da legislação trabalhista e apoio ao fim da escala 6×1 com redução da jornada para 40 horas semanais sem redução salarial.
Na Educação, há ênfase na educação profissionalizante. O plano anuncia mais 111 Institutos Federais e promete novo ciclo de expansão e interiorização — uma tentativa de fornecer o capital humano necessário à política industrial e tecnológica
Na prancheta do PT, investimento público e privado, crédito e política industrial elevam produtividade; agro, energia e recursos naturais oferecem vantagens competitivas; educação fornece trabalhadores qualificados; e a produtividade maior permite salários e empregos melhores.
Lupa: o problema fiscal
O plano do PT afirma que o Estado deve investir em infraestrutura, indústria e crédito para elevar produtividade e crescimento econômico. Com a economia crescendo mais, melhorariam as receitas públicas, criando espaço para o equilíbrio fiscal e para juros menores.
O problema é que a dívida pública deve saltar de 82% para mais de 95% do PIB antes do final do ano — e seguirá em crescimento se não houver tratamento de choque. Uma consolidação fiscal capaz de estabilizar o endividamento deveria, portanto, ser prioritária. A melhora da percepção de solvência reduziria o prêmio de risco e ajudaria a produzir juros estruturais menores. Crédito e capital mais baratos estimulariam o investimento privado e, com ele, o crescimento potencial.
Isso não significa abandonar objetivos estratégicos, mas decidir quais projetos oferecem retorno econômico e social suficiente para justificar o uso de recursos escassos.
É justamente essa hierarquia que falta ao plano de Lula.
O programa é bastante específico quando descreve onde pretende colocar recursos.
Propõe expansão de infraestrutura; crédito industrial e rural; fundos garantidores; investimentos dos bancos públicos; compras governamentais; ampliação da rede federal de ensino; investimentos energéticos; incentivos à transição verde; políticas de qualificação; proteção social; e uma política de valorização real do salário mínimo.
O programa nada diz sobre o espaço fiscal necessário para acomodar todas essas iniciativas.
Não apresenta uma trajetória de dívida desejada. Não quantifica o custo adicional das novas propostas. Não identifica um conjunto relevante de despesas a eliminar ou reduzir. Não fixa limites para subsídios creditícios ou benefícios associados à política industrial. E não apresenta metas de avaliação que permitam encerrar programas cujo retorno econômico não compense seu custo.
Há ainda tensões entre os próprios objetivos. O PT pretende ampliar crédito direcionado e incentivos fiscais e, ao mesmo tempo, reduzir juros; ampliar direitos e reduzir a jornada de trabalho, mas também elevar competitividade; baratear energia e combustíveis e simultaneamente mobilizar os vultosos investimentos necessários à expansão do setor. Não são metas fáceis de conciliar.
Resumo da ópera
Lula promete responsabilidade fiscal, inflação baixa e redução dos juros, mas não se mostra disposto a fazer uma inflexão na política econômica do atual mandato. Promete, na verdade, um aprofundamento: mais política industrial, mais coordenação estatal, mais investimento em infraestrutura, expansão das cadeias verdes e digitais, integração entre agro e indústria, protagonismo da Petrobras, ampliação da educação profissional e maior proteção ao trabalho. Continua apostando que crescimento, aumento de receitas e transformação produtiva serão alcançados sem ajuste fiscal, que viria como consequência, em um momento indefinido do futuro.
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