A cidade do Sertão que exporta frutas para mais de 50 países e movimenta perto de US$ 1 bilhão
O clima da região virou aliado de uma atividade que ganhou o mundo
No imaginário nacional, o Sertão é sinônimo de terra rachada e espera pela chuva. Às margens do Rio São Francisco, em Petrolina, no interior de Pernambuco, a paisagem é outra: parreirais alinhados sob sol constante, pomares de manga e caminhões frigoríficos saindo rumo aos portos. A troca de lugar entre seca e abundância começou com água bombeada e ciência aplicada.
Como o Sertão passou a colher fruta o ano inteiro?
Aprendendo a controlar quando a planta floresce. Instalada em 10 de março de 1975 na cidade pernambucana, a Embrapa Semiárido desenvolveu o uso de reguladores vegetais para induzir a floração da mangueira em qualquer época do ano e adaptou variedades de uva ao calor da região. Sem chuva para atrapalhar e com irrigação sob medida, o produtor decide o calendário da colheita em vez de obedecer a ele.
O resultado aparece nas estatísticas de exportação. O Submédio do Vale do São Francisco responde por 91% da manga e 98% da uva que o Brasil vende ao exterior, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Enquanto a serra gaúcha colhe uva uma vez por ano, o clima seco do semiárido permite duas safras na mesma área.

Que obra levou a água do rio até as fazendas?
Uma rede de canais erguida pelo governo federal a partir do lago de Sobradinho. O Projeto Público de Irrigação Nilo Coelho entrou em operação em 1984 e abrange 18.667 hectares irrigáveis na concepção original, estendidos ao longo da margem esquerda do rio, entre Casa Nova, na Bahia, e a sede do município pernambucano, conforme a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).
O desenho social do projeto explica parte da vitalidade da região. Da área irrigável, 12.520 hectares ficaram com pequenos produtores, chamados localmente de colonos, e 6.147 hectares com empresas de portes variados, o que mistura lotes familiares e fazendas exportadoras no mesmo perímetro. Confira o que sustenta a produção nessa faixa do semiárido:
- Água do São Francisco: captação no reservatório de Sobradinho garante irrigação nos doze meses do ano.
- Sol constante: alta luminosidade acelera a maturação e favorece frutas mais doces.
- Baixa umidade: reduz a incidência de doenças de lavoura comuns em regiões chuvosas.
- Pesquisa aplicada: cultivares e manejo desenhados especificamente para o calor do semiárido.
Quem tem curiosidade sobre o cultivo de frutas e quer conhecer os bastidores da agricultura no sertão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 36 mil visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra a produção orgânica e o polo fruticultor de Petrolina – PE:
Quanto essa agricultura movimenta e quantos empregos gera?
Mais da metade de tudo que os projetos de irrigação federais produzem no país. Somados, os perímetros Bebedouro, Nilo Coelho e Pontal, mantidos em Pernambuco, colheram cerca de 914 mil toneladas em 25,8 mil hectares cultivados e registraram valor bruto de produção próximo de R$ 4,8 bilhões em 2024, segundo a Codevasf. Uva, manga e goiaba lideraram a lista.
O emprego é o dado mais expressivo: a mesma fonte contabiliza cerca de 73,3 mil vagas diretas, indiretas e induzidas, porque a fruticultura mecaniza pouco e depende de mão de obra em colheita, seleção, embalagem e logística. Os destinos também se ampliaram, com a abertura do mercado asiático para a uva pernambucana confirmada pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco. É a mesma lógica de especialização que fez uma cidade do Sul virar fornecedora de ônibus para mais de 140 países, só que aqui a linha de montagem é um parreiral.
Como é o clima de Petrolina ao longo do ano?
O semiárido dita as regras: calor alto o ano inteiro, amplitude térmica grande entre madrugada e tarde e chuva concentrada em poucos meses, com médias mensais que caem quase a zero no inverno. Veja abaixo o comportamento típico de cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de viajar.
Conheça o Sertão que virou vinhedo
A cidade pernambucana mostra que geografia difícil não é destino fechado. Com água captada de um reservatório, pesquisa de meio século e uma rede de pequenos produtores, o semiárido virou a origem de quase toda a uva que o país embarca para fora.
Você precisa conhecer Petrolina, provar a manga colhida na véspera e ver de perto um pedaço de Sertão coberto de parreiras.
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