Rachel de Queiroz: “cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado”. A cronista que abriu caminho para as mulheres na Academia Brasileira de Letras
Rachel de Queiroz foi a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras e escreveu a crônica "Formosa Lindomar"
“Cada coisa tem sua hora e cada hora o seu cuidado.” A frase é da escritora cearense Rachel de Queiroz, na crônica “Formosa Lindomar”.
Quem foi Rachel de Queiroz?
Nascida no Ceará em 1910, Rachel de Queiroz começou a escrever ainda jovem, marcada pela experiência da seca e da migração forçada de famílias nordestinas, tema que se tornaria central em boa parte de sua obra de ficção.
Além de romancista, atuou como jornalista e cronista ao longo de décadas, um dos gêneros em que mais se destacou, escrevendo com regularidade para diferentes veículos da imprensa brasileira.
Gilberto Freyre & Rachel de Queiroz, anos 1970 pic.twitter.com/GGbaI2jrNA
— Josias Teófilo (@josiasteofilo) August 2, 2026
Onde está essa frase?
A frase aparece na crônica “Formosa Lindomar”, texto reunido depois na coletânea 100 Crônicas Escolhidas, publicada em 1958, que reúne parte da produção jornalística da autora escrita entre as décadas de 1940 e 1950.
Diferente de seus romances, as crônicas de Rachel de Queiroz costumavam tratar de observações do cotidiano, num tom mais direto e conversado, característica que ajudou a consolidar a crônica como gênero literário de peso no Brasil.
1930
publica O Quinze, seu primeiro romance, aos 19 anos.
1958
tem crônicas reunidas em 100 Crônicas Escolhidas.
1977
torna-se a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras.
Como foi publicar O Quinze aos 19 anos?
O Quinze, romance de estreia de Rachel de Queiroz, narra os efeitos da grande seca de 1915 no Ceará sobre famílias forçadas a migrar em busca de sobrevivência, tema que a autora conhecia de perto por ter vivido parte da infância sob os efeitos de outra seca, a de 1919.
- Publicado em 1930, quando a autora tinha 19 anos.
- Aborda diretamente os efeitos da seca de 1915 no Ceará.
- É considerado uma das primeiras obras do regionalismo de 1930 na literatura brasileira.
Por que ela foi a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras?
Fundada em 1897, a Academia Brasileira de Letras levou 80 anos para eleger sua primeira integrante mulher, o que aconteceu apenas em 1977, quando Rachel de Queiroz ocupou a cadeira, rompendo com uma composição até então exclusivamente masculina.

Essa demora reflete barreiras mais amplas enfrentadas por escritoras no Brasil ao longo do século 20, num ambiente literário em que o reconhecimento institucional para mulheres chegava de forma mais lenta e tardia do que para autores homens de trajetória equivalente, questão também discutida por outros nomes centrais da literatura regionalista brasileira do século 20, como Guimarães Rosa, contemporâneo de Rachel de Queiroz.
Mais sobre a trajetória da autora está disponível na página oficial da Academia Brasileira de Letras.
O que a frase revela sobre o estilo dela como cronista?
Diferente da urgência dramática de romances como O Quinze, a frase sobre cada coisa ter sua hora mostra outro lado da escrita de Rachel de Queiroz: a observação paciente do cotidiano, sem pressa de resolver ou dramatizar o que descreve.
Essa capacidade de alternar entre o relato urgente da seca e da migração, em seus romances, e a reflexão mais serena do dia a dia, em suas crônicas, ajuda a explicar por que sua obra segue lida em registros tão diferentes até hoje.

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