Mia Couto: “o que faz andar a estrada é o sonho”. O provérbio que abre um dos romances mais importantes de Moçambique
"O que faz andar a estrada? É o sonho." A frase abre Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Conheça o romance sobre a guerra civil moçambicana e seu autor
“O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva.” A frase abre Terra Sonâmbula, romance do escritor moçambicano Mia Couto.
Quem é Mia Couto?
Nascido em Moçambique em 1955, filho de portugueses, Mia Couto é biólogo de formação e um dos nomes mais reconhecidos da literatura em língua portuguesa contemporânea, conhecido por reinventar o idioma com neologismos inspirados na oralidade moçambicana.
Recebeu, ao longo da carreira, prêmios internacionais como o Camões, principal reconhecimento da literatura de língua portuguesa, e tem obra traduzida para diversos idiomas.
"Queixamo-nos de que as pessoas não lêem livros. Mas o deficit de leitura é muito mais geral. Não sabemos ler o mundo, não lemos os outros."
— Nota (@jornalnota) July 6, 2023
Mia Couto pic.twitter.com/sPnF22YtTn
De onde vem essa frase?
A frase é apresentada no romance como um dito atribuído aos habitantes fictícios de Matimati, uma crença segundo a qual a terra se move enquanto as pessoas dormem, e o sonho seria o que sustenta o movimento da estrada à frente delas.
Não é, portanto, uma declaração direta do narrador nem uma tese do próprio Mia Couto fora da ficção: é uma cosmovisão criada dentro do universo do romance, algo comum em sua obra, que costuma incorporar provérbios e crenças orais como se fossem parte do tecido narrativo.
Sobre o que é Terra Sonâmbula?
O romance se passa durante a guerra civil moçambicana e acompanha um velho e um menino que caminham por uma estrada tomada pela destruição do conflito, encontrando um caderno com a história de outro personagem intercalada à jornada dos dois.
A obra alterna, assim, dois planos narrativos: a travessia concreta dos dois personagens pela terra devastada e o mundo reconstruído através da escrita encontrada no caderno.
Por que o sonho aparece como resistência no romance?
Num cenário de guerra que já destruiu praticamente tudo ao redor, o sonho funciona no livro como a última coisa que ainda não foi tomada pelo conflito, o único território que os personagens continuam controlando por conta própria.
- A estrada do romance atravessa um cenário de guerra civil real, ocorrida em Moçambique entre 1977 e 1992.
- O caderno encontrado pelos personagens funciona como narrativa dentro da narrativa.
- O livro integrou lista de melhores romances africanos do século 20, organizada por escritores e críticos do continente.
No Brasil, o romance foi publicado como Terra Sonâmbula, pela Companhia das Letras.

O que a literatura de guerra costuma preservar?
Terra Sonâmbula não é o único registro literário em que a vida interior, seja através de sonhos, seja através da escrita, aparece como o único espaço que um conflito não consegue destruir por completo.
Os diários de Etty Hillesum, escritos em Amsterdã sob ocupação nazista, seguem a mesma lógica, ainda que em outro continente e outra guerra: quando o mundo exterior desmorona, o que se passa por dentro vira o último território que resta.

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)