Etty Hillesum: “Gostaria de ser um bálsamo para muitas feridas”. A última frase do diário de uma jovem judia antes da deportação
Etty Hillesum e a última frase de seu diário, escrito em Amsterdã antes da deportação para Auschwitz em 1943
“Gostaria de ser um bálsamo para muitas feridas.” A frase encerra o diário de Etty Hillesum, jovem judia holandesa que escreveu sobre a própria vida interior durante a ocupação nazista da Holanda.
Quem foi Etty Hillesum?
Hillesum nasceu em 1914 em Middelburg, na Holanda, e vivia em Amsterdã quando começou a escrever, em 1941, os cadernos que mais tarde seriam publicados como diário. Tinha formação em direito e línguas eslavas, e registrou nesses cadernos sua vida interior em meio ao avanço da perseguição nazista aos judeus holandeses.
O diário reúne reflexões pessoais, não um relato jornalístico dos eventos históricos ao redor: é o testemunho de como uma pessoa específica processava, por dentro, o que via acontecer ao seu redor.
- Os cadernos originais cobrem o período de 1941 a 1943, escritos em Amsterdã.
- Incluem também cartas de Hillesum, algumas escritas já em Westerbork.
- Foram publicados de forma completa apenas décadas depois de sua morte.
"Potremo condividere tante cose quest'inverno: se sapremo aiutarci reciprocamente a sopportare il freddo, il buio, la fame.
— mrosaria catalano (@mrcatalano58) January 31, 2023
E se capiremo che ci toccherà sopportare tutto ciò insieme con l'umanità intera, anche coi nostri cosiddetti nemici."
Etty Hillesum
Diario@diconodioggi pic.twitter.com/4VZDJ2js6o
Onde e quando ela escreveu essa frase?
A frase é a última linha registrada do último caderno de seu diário do qual se tem notícia, escrito antes de sua deportação. Um caderno posterior, mantido já no campo de trânsito de Westerbork, se perdeu e nunca foi recuperado.
1941
Etty Hillesum começa a escrever os cadernos em Amsterdã, sob ocupação nazista.
1943
é levada ao campo de trânsito de Westerbork antes de ser deportada.
7 de setembro de 1943
é deportada para Auschwitz.
30 de novembro de 1943
morre em Auschwitz, segundo relatório posterior da Cruz Vermelha.
O que muda no tom do diário ao longo dos dois anos?
Estudiosos que analisaram os cadernos completos observam uma mudança perceptível de foco entre o início e o fim do período registrado: os primeiros textos tratam bastante de questões pessoais e internas, enquanto os últimos cadernos voltam a atenção cada vez mais para as pessoas ao redor, dentro de um contexto que piorava mês a mês.
Não há, no diário, uma virada dramática única: é uma mudança gradual, registrada ao longo de centenas de páginas escritas quase diariamente.
O que aconteceu com ela depois de escrever o diário?
Hillesum tinha 29 anos quando morreu em Auschwitz. Antes da deportação, chegou a trabalhar informalmente ajudando outras pessoas no campo de Westerbork, período também registrado em cartas que sobreviveram junto ao diário.
A frase sobre ser um bálsamo para feridas não descreve um plano abstrato de autoajuda: foi escrita por alguém que, mesmo sabendo do risco crescente à própria vida, seguia voltada para o cuidado com quem estava ao redor.

Por que o diário segue sendo lido e estudado hoje?
O diário completo só foi publicado décadas depois de sua morte, e se tornou um dos registros mais estudados sobre a vida interior de uma vítima do Holocausto, lido tanto por historiadores quanto por leitores interessados em como uma pessoa mantém alguma forma de sentido diante do pior cenário possível.
No Brasil, o diário foi publicado como Uma Vida Interrompida, título que já indica o que a obra é: o registro de uma vida e de um pensamento que continuariam, se as circunstâncias não os tivessem cortado.

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