Hannah Arendt: “terrível e assustadoramente normais”. O que ela viu no julgamento de Eichmann que mudou a forma de entender o mal
Hannah Arendt cobriu o julgamento de Eichmann e cunhou "banalidade do mal". Entenda por que ela o descreveu como "terrível e assustadoramente normal"
“O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e ainda são terrível e assustadoramente normais.” A frase é de Hannah Arendt, no livro em que registrou o julgamento do oficial nazista Adolf Eichmann.
Quem foi Hannah Arendt?
Arendt nasceu na Alemanha em 1906, estudou filosofia sob orientação de Martin Heidegger e Karl Jaspers, e fugiu do país após a ascensão do nazismo, primeiro para a França e depois para os Estados Unidos, onde viveu o resto da vida.
Tornou-se uma das principais pensadoras políticas do século 20, com obras sobre totalitarismo, poder e responsabilidade moral, escritas a partir da própria experiência de perseguição.
“The ideal subject of totalitarianism… is people for whom the distinction between fact and fiction, true and false, no longer exists.”
— Saganism (@Saganismm) January 19, 2026
— Hannah Arendt pic.twitter.com/HRZRueD3gC
Quem foi Eichmann e por que Arendt cobriu o julgamento dele?
Adolf Eichmann foi um oficial nazista responsável pela logística da deportação de judeus para os campos de extermínio. Capturado pelo serviço secreto israelense na Argentina em 1960, foi julgado em Jerusalém em 1961 e condenado à morte.
Arendt cobriu o julgamento como correspondente da revista The New Yorker, e o material viraria o livro Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal, publicado em 1963.
- Eichmann foi capturado em Buenos Aires em maio de 1960.
- O julgamento em Jerusalém começou em abril de 1961.
- Foi condenado à morte e executado em 1962.
- O livro de Arendt sobre o caso saiu em 1963.
O que ela quis dizer com banalidade do mal?
Arendt esperava encontrar, no banco dos réus, um monstro. Encontrou, em vez disso, um burocrata medíocre, que se defendia dizendo apenas ter cumprido ordens e organizado logística, sem nunca se ver como autor moral dos crimes.
1963
ano de publicação de “Eichmann em Jerusalém”, livro que cunhou o termo “banalidade do mal” a partir da cobertura do julgamento para a revista The New Yorker.
A tese de Arendt não era que o mal em si fosse pequeno ou sem importância: era que ele podia ser cometido, em escala industrial, por alguém sem convicções ideológicas profundas nem ódio pessoal, apenas disposto a não pensar sobre o que fazia.
Por que a ideia gerou tanta controvérsia na época?
A tese irritou parte da comunidade judaica e de sobreviventes do Holocausto, que a leram como uma forma de amenizar a responsabilidade de Eichmann ao descrevê-lo como “normal” em vez de monstruoso.

Arendt sustentou, em textos posteriores, que o oposto era verdadeiro: chamar Eichmann de normal não diminuía o crime, tornava-o mais alarmante, porque mostrava que a máquina de extermínio não dependia de um número pequeno de fanáticos, e sim da disposição comum de muitas pessoas em obedecer sem questionar.
No Brasil, o livro foi publicado como Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal, pela Companhia das Letras, em tradução de José Rubens Siqueira.
Qual é o legado da tese hoje?
Para Arendt, o ponto central de Eichmann não era a ausência de inteligência, mas a ausência de reflexão: ele não parava para examinar o sentido do que fazia, apenas seguia o procedimento. A pensadora chegaria, em textos posteriores, a tratar essa incapacidade de pensar como o verdadeiro núcleo do problema, quase quatro séculos depois de Montaigne ter feito do questionamento constante de si mesmo o centro de sua obra.
A tese segue citada hoje sempre que se discute como burocracias e cadeias de comando diluem a responsabilidade individual, muito além do contexto específico do nazismo que a originou.

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)