O túnel ferroviário de 53 km que desce 240 metros sob o mar para unir duas grandes ilhas do Japão
A passagem sob o estreito de Tsugaru possui 23,3 quilômetros sob o leito marinho e levou cerca de 24 anos para entrar em operação
Durante décadas, atravessar o estreito de Tsugaru significava enfrentar águas agitadas, neblina, ventos fortes e tempestades capazes de interromper a ligação entre duas regiões essenciais do Japão. A resposta surgiu longe da superfície, dentro de camadas instáveis de rocha e sob uma enorme coluna de água. O caminho escolhido pelos engenheiros levou os trens a uma profundidade comparável à altura de um prédio com dezenas de andares.
Por que o Túnel Seikan precisou ser construído sob o oceano?
O estreito de Tsugaru separa Honshu, a principal ilha japonesa, de Hokkaido, no norte do país. Durante muito tempo, balsas transportaram passageiros, cargas e vagões ferroviários entre as duas margens. No entanto, o clima severo tornava essa conexão vulnerável, principalmente durante o inverno, quando ventos, ondas e baixa visibilidade dificultavam as operações.
A tragédia do ferry Tōya Maru, atingido por um tufão em setembro de 1954, acelerou os planos para uma passagem permanente. Mais de mil pessoas morreram em diferentes embarcações durante aquela tempestade. Por isso, o governo japonês avançou com os estudos de uma ligação ferroviária protegida sob o leito marinho, capaz de funcionar mesmo quando as condições na superfície impedissem a navegação.
Como o Túnel Seikan atravessa 53 quilômetros entre duas ilhas?
O túnel possui 53,85 quilômetros de extensão e cruza o estreito de Tsugaru entre a prefeitura de Aomori, em Honshu, e Hokkaido. Desse total, cerca de 23,3 quilômetros ficam diretamente sob o leito marinho. No ponto mais profundo, os trilhos passam aproximadamente 240 metros abaixo do nível do mar e cerca de 100 metros sob o fundo do estreito.
- Extensão total de 53,85 quilômetros
- Trecho submarino de 23,3 quilômetros
- Profundidade máxima de 240 metros
- Cerca de 100 metros de rocha sobre os trilhos
O vídeo “Undersea Rail Tunnel Between Japanese Islands: Seikan Tunnel”, publicado pelo canal Railway Engineering, explica a origem do projeto, as etapas da escavação e as dificuldades encontradas sob o estreito de Tsugaru. Além disso, o material apresenta o traçado entre Honshu e Hokkaido e mostra por que os engenheiros precisaram criar túneis auxiliares antes de abrir a passagem principal. Assim, o vídeo complementa o artigo ao transformar os números da obra em uma visão clara da estrutura escondida sob o mar.
Como os engenheiros impediram que a água invadisse a escavação?
Antes de abrir o túnel principal, as equipes perfuraram uma galeria piloto para investigar as rochas e identificar pontos de infiltração. Em seguida, construíram um túnel de serviço paralelo e criaram conexões periódicas com a passagem ferroviária. Esse sistema permitiu testar o terreno, transportar trabalhadores, instalar equipamentos e manter uma rota alternativa para emergências.
Quando as perfurações encontravam rocha fraturada, os operários injetavam uma mistura de cimento sob pressão para preencher rachaduras e formar uma barreira contra a água. Além disso, bombas retiravam continuamente as infiltrações que atravessavam o revestimento. Uma máquina tuneladora chegou a trabalhar no trecho submarino, porém a variação geológica dificultou seu avanço. Por isso, as equipes recorreram principalmente a explosivos e equipamentos mecânicos.
Quais números revelam a dimensão dessa obra subterrânea?
A construção formal começou em 1964, enquanto a ligação principal entre os dois lados ocorreu em 1985. Depois disso, trabalhadores instalaram trilhos, sistemas elétricos, ventilação, drenagem e equipamentos de segurança. O Japão inaugurou o túnel em 13 de março de 1988, após aproximadamente 24 anos de obras.
O custo total chegou a aproximadamente 1,1 trilhão de ienes em valores da época, depois de superar amplamente as primeiras previsões. Além disso, 34 trabalhadores morreram durante a construção, segundo registros históricos da obra. Esses dados mostram que o túnel não surgiu apenas de uma perfuração longa, mas de décadas de levantamentos geológicos, acidentes, correções técnicas e trabalho em um ambiente sem acesso direto à superfície.
Como o Túnel Seikan resiste aos terremotos e à pressão da água?
A posição subterrânea oferece uma vantagem inesperada durante alguns terremotos. O solo profundo pode registrar movimentos menores do que estruturas instaladas na superfície. Durante o terremoto de Hokkaido Nansei-Oki, em 1993, instrumentos no túnel mediram aceleração inferior à observada em terra firme. Ainda assim, equipes monitoram constantemente o revestimento de concreto, a deformação das rochas e a entrada de água.
Além disso, a passagem conta com túneis auxiliares, áreas de emergência, ventilação, alarmes, câmeras e sistemas de drenagem. Bombas trabalham continuamente para remover a água que se infiltra pelas camadas naturais do terreno. Estudos de manutenção realizados ao longo dos anos analisam o comportamento do concreto e das formações geológicas, pois uma falha pequena sob o mar poderia crescer rapidamente sem acompanhamento.

Por que esse túnel continua essencial para os trens do Japão?
Desde 2016, o Hokkaido Shinkansen utiliza o túnel para transportar passageiros em trens de alta velocidade entre Honshu e Hokkaido. Ao mesmo tempo, composições de carga com bitola diferente continuam circulando pelo mesmo corredor. Para permitir essa operação compartilhada, os trilhos receberam uma configuração de bitola dupla, capaz de atender tanto os trens-bala quanto os cargueiros convencionais.
A coexistência impõe limites de velocidade, porque o deslocamento de ar provocado por um Shinkansen muito rápido poderia afetar os contêineres dos trens de carga. Por outro lado, a passagem garante uma ligação ferroviária estável durante todo o ano e reduz a dependência das travessias marítimas. Desse modo, o túnel que nasceu após uma tragédia no mar continua sustentando passageiros, mercadorias e a expansão ferroviária rumo ao norte do Japão.
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