Haruki Murakami: “A dor é inevitável; o sofrimento é opcional”. O mantra que ele ouviu de corredores, não inventou
Haruki Murakami e "a dor é inevitável, o sofrimento é opcional": mantra que ele ouviu de corredores, não inventou
“A dor é inevitável; o sofrimento é opcional.” A frase aparece no livro Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida, de Haruki Murakami, mas ele mesmo não reivindica ter criado essa ideia.
Por que Murakami não é o autor original dessa frase?
No próprio livro, Murakami apresenta a frase como um mantra que ouviu de outros corredores de longa distância, repetido informalmente entre maratonistas havia tempos, não como uma criação sua. Ele adota a frase, não a inventa.
A origem exata do ditado é incerta e disputada: aparece em contextos de grupos de apoio décadas antes do livro de Murakami, e às vezes é atribuída, sem confirmação, a tradições budistas. O mérito de Murakami foi popularizar a frase para um público bem mais amplo de leitores, não cunhá-la.

Qual é o histórico real de corrida por trás do livro?
Murakami começou a correr em 1982, aos 33 anos, logo depois de vender o bar de jazz que administrava em Tóquio para se dedicar integralmente à escrita. Desde então, mantém a rotina de corrida por décadas.
Não é força de vontade ocasional: é décadas de rotina registrada no próprio livro.
25 maratonas
completadas, incluindo a de Nova York e o trajeto original de Maratona, na Grécia
mais uma ultramaratona de 100 km e vários triatlos ao longo da vida adulta
O que ele quer dizer com escolher a relação com a dor?
A distinção que Murakami explora no livro é entre a dor física, inevitável em qualquer corrida longa, e o sofrimento mental, que depende de como a pessoa interpreta essa dor: como motivo para desistir, ou como parte esperada do percurso.
- Dor é sinal físico direto: o corpo cansado, os músculos exigidos.
- Sofrimento é a narrativa que a mente constrói sobre essa dor, e essa narrativa, ao contrário da dor em si, pode ser ajustada.
Talento importa menos do que constância, segundo o livro?
Murakami é direto sobre isso: trata talento como algo que ajuda, mas não substitui a repetição diária. Segundo ele, é mais fácil sustentar uma atividade difícil por décadas tendo um sistema de rotina do que dependendo de inspiração ou disposição pontual.
Essa mesma ideia, de que sistemas sustentam resultado no longo prazo mais do que motivação passageira, é o centro do “você não sobe ao nível dos seus objetivos” de James Clear.

Como a rotina de corredor virou rotina de escritor?
Murakami descreve no livro uma disciplina quase idêntica aplicada às duas atividades: horário fixo, constância diária, e aceitação de que tanto escrever quanto correr exigem repetição, mesmo nos dias sem vontade nenhuma.
Publicado no Brasil pela Alfaguara, o livro trata menos de técnica de corrida e mais dessa disciplina compartilhada entre esporte e ofício criativo, aplicável a qualquer atividade que exija repetição de longo prazo.

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