Dennys Xavier na Crusoé: A diplomacia na Grécia Antiga
O estrangeiro – isso é de uma beleza descomunal – era acolhido antes de ser plenamente conhecido
A diplomacia moderna pressupõe Estados soberanos, representantes credenciados, tratados escritos, protocolos e imunidades reconhecidas juridicamente. Esses são traços mais ou menos reconhecidos segundo elementos formais e também tácitos.
Nada disso existia entre os gregos homéricos… ao menos em perspectiva comparável à atual.
Ainda assim, alguns dos elementos indispensáveis à vida diplomática aparecem cedo no mundo grego: a proteção do estrangeiro, a reciprocidade entre comunidades, o respeito ao mensageiro, a força do juramento e a criação de espaços nos quais a hostilidade pudesse ser suspensa em favor da palavra, enfim.
Talvez pudéssemos dizer que estavam ali ab ovo os movimentos essenciais que tornaram possível a convivência entre diversos, sejam eles amigos ou mesmo adversários, segundo regras compartilhadas e reconhecidas pelos civilizados.
A origem desse universo se entrevê, de início, em plano microcósmico, no universo da hospitalidade doméstica.
O termo central é xenía (ξενία), ligado a xénos (ξένος) – a pronúncia é “ksenía”/ “ksénos” –, palavra que pode significar estrangeiro, hóspede e, conforme o contexto, também anfitrião.
O cálculo é simples: quem hoje recebe pode, em outra ocasião, depender da acolhida de outro.
A hospitalidade nasce, portanto, de uma consciência elementar da reversibilidade da condição humana.
Nos poemas homéricos, a xenía não é tão-somente uma cortesia. Ela constitui uma obrigação religiosa e social.
O estrangeiro deve ser recebido, alimentado, banhado e protegido antes de ser interrogado. Quando Atena, disfarçada, chega ao palácio de Odisseu, Telêmaco lhe diz: “Salve, estrangeiro. Entre nós serás acolhido; depois de participares da refeição, dirás do que necessitas”.
A passagem encontra-se na Odisseia 1.123–124.
A sequência, neste caso, importa mais do que o usual. Primeiro vem a acolhida; depois, a identidade e o pedido.
O visitante não precisa demonstrar de imediato quem é, de onde vem ou que vantagem pode oferecer. Seu corpo cansado, sujo, provado, recebe proteção antes que sua palavra seja posta à prova.
Há aqui uma intuição…
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