A cidade antiga de 1,3 mil anos que continua intacta a 40 metros debaixo d’água
Shi Cheng foi inundada para a construção de uma usina e ainda guarda portões, ruas e esculturas imperiais sob o Lago Qiandao
Sob a superfície tranquila de um lago cercado por mais de mil ilhas, existe uma paisagem que parece ter sido interrompida no tempo. Portões monumentais, ruas pavimentadas e esculturas imperiais continuam escondidos na escuridão, dezenas de metros abaixo dos barcos que cruzam o local diariamente.
Como Shi Cheng se tornou uma das cidades mais intrigantes da China?
Shi Cheng, cujo nome significa “Cidade do Leão”, foi durante séculos o centro político e econômico do antigo condado de Sui’an, na atual província chinesa de Zhejiang. Registros regionais atribuem à cidade uma história de aproximadamente 1.339 anos, embora a ocupação administrativa da área seja ainda mais antiga e alguns elementos urbanos tenham sido reconstruídos ao longo de diferentes dinastias.
O nome surgiu por causa da proximidade com a montanha Wu Shi, conhecida como Montanha dos Cinco Leões. Dentro das muralhas havia residências, templos, pontes, portões e arcos memoriais decorados com figuras tradicionais. Parte importante da arquitetura hoje visível foi construída ou reformada durante as dinastias Ming e Qing, entre os séculos XIV e XX.
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Por que a cidade submersa foi inundada de propósito em 1959?
Shi Cheng não desapareceu por causa de terremotos, enchentes naturais ou guerras. Em 1959, o vale foi deliberadamente alagado para formar o reservatório da Usina Hidrelétrica do Rio Xin’an. O projeto deu origem ao Lago Qiandao, também chamado de Lago das Mil Ilhas, e cobriu antigas áreas urbanas, aldeias e terras agrícolas.
- A população foi retirada antes da elevação da água
- Mais de 1.300 vilarejos desapareceram na área do reservatório
- Cerca de 290 mil pessoas precisaram ser realocadas
- Shi Cheng e a cidade mais antiga de He Cheng ficaram sob o lago
- As montanhas mais altas do vale se transformaram nas ilhas atuais
O vídeo “This Is What China’s Version of Atlantis Looks Like”, do canal Smithsonian Channel, mostra imagens das estruturas de Shi Cheng e explica como a antiga cidade terminou sob o Lago Qiandao. As cenas permitem observar portões, relevos e construções iluminados por mergulhadores, complementando a dimensão histórica da inundação.
O que manteve portões e esculturas preservados por tantas décadas?
A inundação destruiu parte da vida urbana da região, mas produziu um efeito inesperado sobre as construções que ficaram para trás. Debaixo d’água, as estruturas deixaram de sofrer diretamente com chuva, vento, variações intensas de temperatura, vegetação terrestre e exposição constante ao sol. A água fria e relativamente estável ajudou a reduzir o desgaste de muitos elementos de pedra.
Isso não significa que tudo esteja exatamente como em 1959. Sedimentos, organismos aquáticos, pressão e movimentações ocasionais provocam alterações, enquanto alguns telhados e paredes apresentam danos. Mesmo assim, mergulhadores encontraram portas, escadarias, vigas, inscrições e relevos em estado surpreendente para uma cidade submersa há mais de seis décadas.
Quais detalhes da arquitetura imperial ainda aparecem sob a água?
Shi Cheng possuía cinco portões de entrada, uma característica incomum em comparação com o padrão de quatro acessos encontrado em muitas cidades muradas chinesas. Levantamentos e relatos de mergulho também mencionam aproximadamente 265 arcos, incluindo estruturas memoriais com inscrições e esculturas detalhadas de dragões, leões, fênix e figuras tradicionais.
| Estrutura preservada | O que ainda pode ser observado |
|---|---|
| Portões | Entradas monumentais e torres |
| Arcos | Inscrições e relevos decorativos |
| Ruas | Caminhos pavimentados entre edifícios |
| Esculturas | Dragões, leões e fênix em pedra |
| Residências | Paredes, portas e vigas antigas |
As imagens mais conhecidas revelam detalhes que dificilmente sobreviveriam por tanto tempo em uma cidade abandonada na superfície. Os mergulhadores relatam relevos ainda nítidos, caracteres chineses talhados na pedra e caminhos que permitem reconhecer o traçado original. A descrição oficial do Lago Qiandao pelo governo de Zhejiang confirma que o reservatório começou a receber água em setembro de 1959, inundando partes dos antigos condados de Chun’an e Sui’an.
É possível mergulhar até a cidade submersa atualmente?
As construções estão distribuídas em profundidades que variam aproximadamente entre 25 e 40 metros, dependendo do ponto explorado e do nível do reservatório. A descida ocorre em água doce, fria, escura e com visibilidade limitada. Em algumas áreas, um simples movimento de nadadeira pode levantar sedimentos e reduzir a visão dos mergulhadores quase imediatamente.
Por essas condições, Shi Cheng não funciona como uma atração de mergulho comum, aberta livremente a qualquer visitante. Explorações dependem de autorização, operadores especializados e mergulhadores experientes em profundidade, baixa visibilidade e ambientes semelhantes a mergulhos noturnos. Relatos publicados também indicam que o acesso turístico já sofreu restrições para ajudar a proteger as ruínas.

Por que a cidade submersa ganhou o apelido de Atlântida da China?
A comparação surgiu porque Shi Cheng reúne quase todos os elementos de uma história sobre uma civilização perdida: uma cidade murada, edifícios monumentais, ruas vazias e esculturas escondidas no fundo de um lago. A diferença essencial é que sua existência não pertence à mitologia. Há registros da inundação, moradores realocados, fotografias e expedições que documentam as construções.
Vista da superfície, a região parece apenas um enorme lago artificial pontilhado por 1.078 ilhas cobertas de vegetação. Abaixo dele, Shi Cheng permanece como um retrato silencioso da China anterior à industrialização acelerada: uma cidade sacrificada para produzir energia que, de maneira inesperada, encontrou na própria inundação uma forma rara de preservação.
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