Chips da beleza: risco sem base científica
Implantes hormonais vendidos como solução estética não têm eficácia comprovada e podem provocar efeitos colaterais graves
Produtos conhecidos como “chips da beleza” vêm sendo comercializados no Brasil com promessas de emagrecimento, aumento de massa muscular e melhora estética, apesar de não haver comprovação científica de sua eficácia para esses fins.
A informação é da endocrinologista Maria Edna de Melo, pesquisadora do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Ela disse ao Jornal da USP que o uso indiscriminado desses implantes representa risco à saúde e é impulsionado por interesses comerciais de farmácias de manipulação e profissionais médicos.
Indicação médica é restrita
A reposição hormonal tem indicação estabelecida principalmente para mulheres na menopausa, período em que os ovários reduzem a produção de estradiol e progesterona.
Já a reposição de testosterona é recomendada apenas em situações pontuais, como na síndrome do desejo sexual hipoativo, quadro de queda persistente da libido cujo diagnóstico exige descartar outras causas, entre elas estresse, sobrecarga doméstica e profissional, cansaço e doenças associadas.
Os chips vendidos com apelo estético, no entanto, não integram esse rol de indicações clínicas reconhecidas.
Produtos manipulados escapam de controle
A maior parte dos chips da beleza é fabricada em farmácias de manipulação, sem passar pelos mesmos testes de qualidade e segurança exigidos de medicamentos industrializados. Muitas formulações associam diferentes hormônios em doses variáveis, combinação sem sustentação científica quanto à segurança.
Um dos compostos mais usados é a gestrinona, hormônio com ação anabolizante. Segundo a endocrinologista, pacientes com endometriose costumam recebê-lo sem saber dessa característica — e a própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) demorou para reconhecer oficialmente a substância como anabolizante.
Venda direta em consultórios movimenta o setor
De acordo com a especialista, farmácias de manipulação procuram médicos para comercializar os implantes em consultório, e como o mesmo profissional costuma prescrever e aplicar o produto, o retorno financeiro tende a ser alto. Esse modelo de negócio contribuiria para disseminar um tratamento sem embasamento científico para uso estético.
A regulamentação da Anvisa exige receita de controle especial com Código Internacional de Doenças (CID) que justifique o uso clínico, mas a fiscalização ainda é insuficiente, permitindo a continuidade da prática.
Entre os efeitos colaterais relatados estão acne, alterações de pele, engrossamento da voz, aumento de pelos e maior risco cardiovascular. O uso também pode provocar mudanças comportamentais, como irritabilidade, estresse mental e agressividade — reações associadas ao uso de anabolizantes de forma geral.
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