Comércio sobreviverá a trombada entre Lula e Milei
Grau de interdependência econômica entre Brasil e Argentina torna improvável que briga de presidentes leve a ruptura
A visita de Javier Milei ao Brasil para participar da convenção que oficializou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro abalou as relações entre Brasília e Buenos Aires. Em discurso estridente, Milei se referiu a Lula como “presidiário”, “ladrão” e “lixo socialista”; disse também que foi impedido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca”.
Em resposta, o Itamaraty convocou o embaixador argentino para prestar esclarecimentos, chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas e classificou as declarações como inaceitáveis.
Do lado argentino, o governo sinalizou que não pretende pedir desculpas, indicando que o episódio não deverá ser encerrado rapidamente. Nesta segunda, 27, Milei disse ainda que o Brasil patrocina uma campanha contra o seu país
A imprensa argentina tratou o episódio como um novo e grave capítulo na deterioração das relações bilaterais. Os jornais La Nación e Clarín enfatizaram que a escalada produzida pelas declarações de Milei não tem precedentes na história dos dois países.
Por que importa
A crise político-diplomática é suficientemente grave para despertar preocupação entre empresários, investidores e setores industriais altamente dependentes do comércio bilateral. Brasil e Argentina mantêm uma das cadeias produtivas mais integradas do hemisfério, especialmente na indústria automotiva. Uma deterioração prolongada das relações entre os governos poderia, em tese, afetar negociações regulatórias, investimentos e o ambiente de negócios.
O diagnóstico predominante, contudo, aponta na direção oposta. Como observa o Clarín, o elevado grau de interdependência econômica torna pouco provável uma ruptura. O custo de transformar o conflito político em conflito econômico seria elevado para ambos os lados, razão pela qual a importância da relação bilateral funciona como fator de contenção.
Lupa
Os números ajudam a dimensionar os limites impostos pela economia.
Em 2025, o comércio bilateral alcançou aproximadamente 31 bilhões de dólares, consolidando a Argentina como o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de China e Estados Unidos. As exportações brasileiras para o país cresceram mais de 30% no ano, impulsionadas principalmente pela indústria automobilística, de autopeças e de bens manufaturados.
Dois fatores tornam difícil desfazer o vínculo entre vizinhos. O primeiro é a integração produtiva construída ao longo de décadas. Cadeias industriais dos dois países operam de forma complementar, apoiadas pelos acordos do Mercosul, tornando elevados os custos de substituição de fornecedores.
O segundo é a importância estratégica do mercado argentino para a indústria brasileira. Em momentos recentes, as exportações para a Argentina ajudaram a compensar perdas decorrentes da desaceleração internacional e das novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, Buenos Aires continua dependendo do Brasil em diversos setores industriais e energéticos, como demonstraram os episódios de cooperação envolvendo fornecimento de gás natural e apoio financeiro em organismos multilaterais.
Visão panorâmica
A profunda imbricação das duas economias não significa que mudanças estruturais não possam acontecer – como de fato elas vêm acontecendo. Mas isso deriva das reformas econômicas implementadas por Javier Milei e não de desentendimentos diplomáticos.
A eliminação de subsídios à energia, gás e transporte reduziu o poder de compra das famílias argentinas e diminuiu a demanda por bens duráveis, justamente a especialidade das exportações brasileiras. Paralelamente, a abertura comercial promovida pelo governo argentino favoreceu a rápida expansão dos fabricantes chineses, sobretudo de veículos elétricos e híbridos.
No primeiro semestre de 2026, a China superou o Brasil como principal fornecedora de bens para a Argentina. Além dos preços mais competitivos, a presença chinesa também se apoia em investimentos acumulados em infraestrutura, mineração e energia, na possibilidade de liquidação comercial em yuans e numa capacidade industrial que hoje supera amplamente a brasileira em diversos segmentos tecnológicos.
Resumo da ópera
É improvável que a relação pessoal e política entre Lula e Javier Milei seja recomposta no curto prazo. Se Lula conquistar um novo mandato, a tendência é que esse antagonismo continue marcando a relação entre os governos.
Outra conclusão, porém, parece igualmente sólida. Nenhum dos dois países tem interesse em transformar uma crise diplomática em uma crise econômica. A disputa ideológica pode continuar produzindo choques políticos frequentes, mas a elevada integração produtiva e comercial entre Brasil e Argentina continua funcionando como um poderoso incentivo à preservação da cooperação econômica. A turbulência política tende a persistir; a racionalidade econômica, ao menos por enquanto, permanece como seu principal contrapeso.
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