Conviver é o verdadeiro preço de morar em condomínio
Ao adquirir um imóvel, compramos também a obrigação permanente de dividir espaço, decisões e interesses com pessoas que não escolhemos
Quando alguém compra um apartamento, costuma fazer contas sobre financiamento, escritura, IPTU e taxa de condomínio. Quase ninguém calcula o custo mais alto de todos.
Conviver.
Esse é o verdadeiro preço de morar em condomínio.
Ao adquirir um imóvel, compramos paredes, garagem, elevadores e áreas comuns. Mas compramos também algo invisível: a obrigação permanente de dividir espaço, decisões e interesses com pessoas que não escolhemos.
Talvez por isso tantos conflitos pareçam desproporcionais.
Não é apenas o cachorro que latiu.
Não é apenas a criança correndo.
Não é apenas o morador que estacionou torto.
O que realmente incomoda é a sensação de que outra pessoa interferiu, ainda que por alguns minutos, na forma como gostaríamos de viver.
Existe uma expectativa silenciosa de que o condomínio funcione como uma extensão da nossa casa. Esperamos silêncio quando queremos descansar. Esperamos organização quando precisamos sair. Esperamos regras que protejam aquilo que consideramos importante.
O problema é que o vizinho faz exatamente a mesma expectativa.
É nesse ponto que nasce praticamente todo conflito condominial.
Cada morador acredita estar defendendo um direito legítimo. Poucos percebem que o direito do outro possui exatamente a mesma legitimidade.
Por isso, assembleias raramente discutem apenas orçamento ou obras. Elas discutem visões de mundo.
Há quem valorize liberdade acima de tudo.
Há quem coloque a segurança em primeiro lugar.
Há quem prefira investir no patrimônio.
Há quem queira reduzir despesas.
Nenhuma dessas posições é necessariamente errada. O desafio começa quando cada grupo passa a acreditar que apenas sua visão merece prevalecer.
Talvez esse seja o maior equívoco sobre a vida em condomínio.
Muitas pessoas imaginam que o síndico existe para eliminar conflitos.
Ele não existe.
O papel da administração nunca foi produzir unanimidade. Foi criar regras capazes de permitir que pessoas profundamente diferentes consigam continuar vivendo sob o mesmo endereço.
Conviver nunca significou concordar.
Significa aceitar que a cidade não termina na porta do apartamento.
Ela continua no corredor, no elevador, na garagem e, principalmente, dentro das assembleias.
O condomínio é uma das últimas experiências de vida coletiva que ainda restam nas grandes cidades.
Talvez por isso revele tanto sobre quem somos.
E talvez seja exatamente por isso que morar em condomínio ensine uma lição desconfortável: o maior desafio nunca foi dividir um prédio.
Sempre foi dividir a realidade com pessoas que pensam diferente de nós.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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