Dennys Xavier na Crusoé: Por que temos homens medíocres?
No Império, o saber funcionava como uma credencial esperada daqueles que aspiravam aos altos postos. Hoje, essa expectativa tornou-se menos exigente
Gosto de imaginar uma sessão do Senado do Império. Sem idealizações românticas ou projeções infantilóides cogitadas para criar ranço ainda maior com os duros tempos em que estamos imersos, sei muito bem que os seus integrantes estavam longe de representar um modelo acabado de virtude.
A escravidão ainda existia, o país lidava com temas complexos, mas… existe uma característica daqueles debates que chama a atenção de qualquer leitor dos anais parlamentares.
Os homens que ocupavam a tribuna pareciam sentir uma obrigação permanente de demonstrar que haviam estudado.
Os discursos de Paulino José Soares de Sousa, o Visconde do Uruguai, de José Antônio Pimenta Bueno, o Marquês de São Vicente, de Zacarias de Góis e Vasconcelos, de Nabuco de Araújo, entre tantos outros, pertencem a uma época em que o debate político ainda caminhava de mãos dadas com o direito, com a história e com a filosofia política.
Não eram homens infalíveis, por óbvio.
Defenderam, aqui e ali, posições que hoje podem virtualmente ser contestadas com boas razões.
Ainda assim, percebiam que a autoridade de uma ideia dependia, em alguma medida, da tradição intelectual capaz de sustentá-la.
A experiência inglesa, o constitucionalismo americano, o direito romano, Montesquieu, Burke, Tocqueville e os autores clássicos apareciam com frequência nas discussões: não como ornamentos retóricos, mas como parte do próprio modo de raciocinar. A burrice ou o apedeutismo não eram vistos como virtude.
Esse ambiente ajuda a compreender a figura de Dom Pedro II.
Seu prestígio como homem de cultura não nasceu de uma lenda construída depois da Proclamação da República.
Os diários do imperador, sua correspondência…
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