João Bosco critica identitarismo e defende liberdade artística
Músico critica visões radicais sobre cultura e reivindica caráter poético das crônicas sociais brasileiras
Ao completar oito décadas de vida, o compositor e violonista João Bosco defendeu a liberdade artística e criticou o que classifica como um “identitarismo de forma muito exagerada”.
Em depoimento ao Estadão, disse que a criação musical deve ser compreendida como um registro lírico da realidade, e não deve ser alvo de interpretações literais ou censuras baseadas em critérios morais da atualidade.
Bosco explica que sua trajetória, iniciada em Minas Gerais e consolidada no Rio de Janeiro ao lado de Aldir Blanc, sempre focou em parcelas da população com pouca representatividade. Ele cita boias-frias, balconistas e frequentadores de setores populares de estádios como figuras centrais de sua obra, que busca unir o cotidiano à estética.
Para o violonista, a música não tem a função de ditar normas de conduta. Segundo o relato de Bosco à fonte, obras como “Gol Anulado” pertencem a um “universo criativo poético” e não podem ser tratadas como diretrizes sociais ou incitação a comportamentos específicos.
“Eu não aceito isso. A música é uma crônica. Ela é feita dentro de um universo criativo, poético. Não é um ato institucional. Não é uma lei”.
Diálogo e realidade nacional
João Bosco diz que falta tolerância no debate público, especialmente em setores da esquerda brasileira. Ele sustenta que a divisão rígida entre polos impede o entendimento da complexidade artística e da própria história do país.
“Se você pegar a obra musical brasileira de lá de trás, de grandes compositores, [sob a ótica do identitarismo] você vai perder muita coisa boa do Brasil. As pessoas estão muito loucas, exageradas. Precisam ser melhor medicadas. Isso não vai nos levar a lugar nenhum. Tem de haver uma tolerância, um diálogo”.
O artista argumenta que o radicalismo entre o “sim e o não” ou o “bem e o mal” não apresenta perspectivas de avanço para a sociedade.
Subiria num palanque?
Para o músico, “Brasil passa por uma fase de difícil compreensão. Desde junho de 2013 [as manifestações de rua], as coisas ficaram confusas. Com a internet, piorou mais ainda. Falta uma harmonia na qual você possa definir um tipo de bloco do qual você participe. A extrema direita, o fascismo, está crescendo no mundo. E não só nos países do chamado G7, os mais importantes, mas também na América Latina e, propriamente, na América do Sul. Se você olhar para os resultados recentes das eleições, vai perceber que está complicado”.
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Comentários (2)
Gervino
18.07.2026 07:20Agora concordo com sua visão da atualidade
Gervino
18.07.2026 07:19Sempre gostei da música de João Bosco.