Coreia do Norte testa limites do armistício
Especialistas veem apoio de Rússia e China por trás do avanço de obras na zona desmilitarizada, próxima à fronteira com o Sul
Militares norte-coreanos vêm erguendo cercas, valas antitanque e campos minados cada vez mais próximos do centro da Zona Desmilitarizada que separa as duas Coreias, em alguns trechos a menos de 100 metros da Linha de Demarcação Militar.
O governo sul-coreano informou a preocupação à ONU em reunião no fim de junho, apontando risco de violação ao armistício de 1953 que pôs fim à Guerra da Coreia.
Obras se aproximam do limite central
A Zona Desmilitarizada tem 4 quilômetros de largura e se estende por 238 quilômetros, dividindo a península desde o cessar-fogo de 1953. Segundo o Ministério da Defesa da Coreia do Sul, equipes de engenharia do Norte instalaram novas cercas, abriram estradas militares, cavaram trincheiras, removeram vegetação e implantaram campos minados do lado norte da linha divisória.
O reforço das obras teria começado em abril de 2024, meses depois de o líder norte-coreano Kim Jong-un anunciar mudança na forma como Pyongyang trata as relações intercoreanas, passando a descrevê-las como as de “dois países hostis e dois beligerantes em guerra”, em vez de manter o discurso de reconciliação.
Em entrevista coletiva no dia 25 de junho, a porta-voz do Ministério da Defesa sul-coreano, Chung Binna, disse que instalar capacidade militar tão perto do ponto médio da zona anula, na prática, a função de área-tampão da DMZ.
Analistas ouvidos sobre o tema associam o comportamento a uma nova Constituição norte-coreana, que teria redefinido o conceito de fronteira do país.
Para Choo Jae-woo, professor de política externa da Universidade Kyung Hee, em Seul, o texto constitucional passou a tratar a MDL como o limite sul do território nacional: “A nova Constituição redefine o conceito de fronteiras e territórios nacionais”.
“Agora eles veem a MDL — o ponto exato no meio da DMZ — como sua fronteira sul e estão tomando medidas para estender seu controle sobre essa terra até o limite máximo. Eles não veem mais a DMZ como uma zona de amortecimento; querem controlá-la como parte de seu território”.
Apoio de Rússia e China é citado como fator
Choo relaciona o movimento ao suporte político e militar que a Coreia do Norte recebe de Moscou e Pequim, inclusive após o envio de tropas norte-coreanas para apoiar a operação militar russa na Ucrânia: “Eles estão testando os limites”, disse. “Sabem que têm o apoio tanto da Rússia quanto da China em todos os seus empreendimentos — militares, econômicos e geopolíticos — e Pyongyang sente que este é o momento de ver até onde pode ir”.
O especialista também associou o episódio à construção de novos navios de guerra pelo Norte e à possibilidade de testes futuros na Linha Limite Norte (NLL), fronteira marítima disputada no Mar do Oeste, palco do ataque à ilha de Yeonpyeong em 2010, que matou quatro sul-coreanos.
Dan Pinkston, professor de relações internacionais da Universidade Troy, com sede em Seul, compara a estratégia norte-coreana ao método usado pela China para ocupar gradualmente pontos disputados no Mar do Sul da China, sem reação internacional organizada.
“Trata-se de uma potência revisionista que está insatisfeita com a governança global e procura obter vantagens de todas as formas possíveis”, disse Pinkston. Segundo o professor, Pyongyang mantém cooperação com Moscou no Extremo Oriente russo em comércio e obtenção de equipamentos militares, além de receber tecnologias de uso duplo vindas da China.
O Comando das Nações Unidas, responsável por supervisionar o cumprimento do armistício, declarou que monitora as atividades na DMZ e que construção de estradas, cercas e instalação de minas são permitidas pelo acordo, desde que fiquem ao norte da MDL.
O órgão informou ainda não haver indícios de que armamento pesado ou drones tenham sido levados para dentro da zona, o que representaria violação automática.
Segundo o Comando da ONU, há investigações em curso sobre relatos de cercas norte-coreanas que ultrapassariam a MDL e sobre a instalação de minas no lado sul da linha, prática que classificou como quebra automática do acordo. “Qualquer cruzamento confirmado acionará imediatamente os protocolos de violação do armistício”, informou o órgão.
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