Focus corta projeção de inflação pela segunda vez
Mercado reduz projeção do IPCA 2026 para 5,16% no Focus, mas mantém expectativa de Selic em 14%. Entenda os limites da melhora e os riscos
A nova edição do Boletim Focus reforçou uma mudança gradual na percepção do mercado sobre a inflação brasileira, mas ainda sem alterar o diagnóstico de que o Banco Central deverá manter os juros elevados por mais tempo.
A mediana das projeções para o IPCA de 2026 recuou de 5,30% para 5,16%, na segunda queda consecutiva, enquanto a expectativa para o PIB permaneceu em 1,99% e a Selic seguiu em 14% ao fim deste ano.
A redução das estimativas ocorre em um momento de maior complexidade para a economia internacional.
O conflito entre Estados Unidos, Irã e Israel voltou a elevar as incertezas sobre os preços do petróleo e os custos logísticos, fatores que podem interromper a desaceleração da inflação caso provoquem um choque de oferta mais duradouro.
Ainda assim, os economistas consultados pelo Banco Central entenderam que os indicadores recentes de preços e a valorização do real abriram espaço para uma revisão das projeções.
O alívio, porém, é limitado. A estimativa de 5,16% permanece acima do teto da meta contínua de inflação, de 4,5%, o que ajuda a explicar a manutenção da expectativa de Selic em 14%.
Para 2027, embora o IPCA esperado tenha subido apenas marginalmente de 4,18% para 4,20%, o crescimento previsto para a economia caiu de 1,69% para 1,65%, indicando que o mercado já incorpora os efeitos prolongados de uma política monetária restritiva sobre a atividade.
Outro aspecto relevante é que as projeções para o câmbio permaneceram praticamente inalteradas, em 5,20 reais por dólar para 2026 e 5,28 reais para 2027.
Essa estabilidade reduz parte da pressão inflacionária vinda das importações, mas ainda depende da evolução do cenário externo e da percepção sobre o risco fiscal brasileiro.
O Focus também mostrou aumento da projeção para a dívida líquida do setor público, de 69,84% para 69,87% do PIB, preservando a avaliação de que as contas públicas continuam sendo um dos principais fatores monitorados pelos investidores.
A inflação passou a apresentar sinais mais favoráveis, mas permanece acima da meta, enquanto os riscos associados ao conflito no Oriente Médio e ao quadro fiscal dificultam uma mudança mais significativa nas expectativas para a queda dos juros.
A melhora do Focus representa um avanço, porém ainda insuficiente para convencer o mercado de que o ciclo de convergência dos preços está consolidado.
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