Crusoé: O dólar está perdendo poder?
Dólar ainda domina 57% das reservas, mas yuan e ouro avançam. Entenda a lenta transição para uma realidade mais multipolar
O dólar americano ainda reina soberano nas finanças internacionais, mas uma série de relatórios recentes mostra que essa hegemonia enfrenta pressões crescentes, alimentadas por tensões geopolíticas e pela ascensão de alternativas chinesas.
Um levantamento do Banco Central Europeu revelou que, pela primeira vez, o ouro já supera os títulos do Tesouro americano na composição das reservas dos bancos centrais mundiais: 27% em ouro contra 22% em Treasuries no fim de 2025, invertendo a proporção de um ano antes.
Segundo o Financial Times, a mudança é explicada em parte pela valorização de 64% do ouro no último ano, mas também confirma uma tendência: o FMI aponta que a fatia do dólar nas reservas mundiais caiu de 64% para 57% em uma década.
Economistas da Universidade da Califórnia em Berkeley, como Barry Eichengreen, reforçam esse diagnóstico. Em um painel recente, ele destacou que o dólar ainda responde por 57% das reservas cambiais e 90% das transações internacionais, mas avalia que o mundo caminha lentamente para um sistema financeiro mais multipolar, menos centrado na moeda americana.
O vencedor do prêmio Nobel de economia, Paul Krugman, foi além, argumentando que a guerra travada pelos Estados Unidos contra o Irã acelerou essa erosão ao mostrar a outros países que é possível contornar o sistema de pagamentos baseado no dólar, em grande parte graças à infraestrutura alternativa construída pela China. Para Krugman, o golpe atinge principalmente o poder de coerção americano, não necessariamente o uso comercial cotidiano da moeda.
Nesse sentido, Pequim tem acelerado sua ofensiva. O Banco Popular da China autorizou o Standard Bank e o ICBC a operar a primeira câmara de compensação em yuan para todo um continente, cobrindo 19 países africanos.
A medida permite que empresas paguem fornecedores chineses diretamente em yuan, sem passar pelo dólar. O Ecobank já negocia acordo semelhante com o Bank of China, e países como Quênia e Zâmbia já convertem parte de suas dívidas e receitas para a moeda chinesa. O Quênia economizou cerca de 215 milhões de dólares ao ano ao trocar 3,5 bilhões de dólares de empréstimos chineses para yuans.
Segundo a Bloomberg, a redução gradual da dominância do dólar pode ter como efeito um aumento da resiliência da economia mundial. Ao diversificar riscos financeiros e reduzir a exposição a flutuações da política monetária dos EUA, o mundo ganha maior estabilidade diante de choques. Com a fatia do dólar nas reservas em torno de 57%, esse processo multipolar mitiga vulnerabilidades sem eliminar o papel central da moeda americana.
Ainda assim, o dólar segue longe de ser destronado: cerca de 40% a 54% do comércio mundial continua faturado em dólares, e os passivos bancários em dólar fora dos EUA saltaram para 14 trilhões de dólares. O que se observa…
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