A Terra permaneceu quase totalmente congelada por cerca de 57 milhões de anos, mas novas evidências indicam que estações do ano e ciclos climáticos continuaram ativos sob o gelo
A glaciação Sturtiana é considerada um dos episódios climáticos mais extremos da Terra que ocorreu há cerca de 717 milhões de anos
A glaciação Sturtiana é considerada um dos episódios climáticos mais extremos da Terra. Ocorreu há cerca de 717 milhões de anos, durante o Período Criogeniano, quando o planeta pode ter ficado quase todo coberto por gelo por milhões de anos.
O que foi a glaciação Sturtiana?
A glaciação Sturtiana integra o conceito de Terra bola de neve, em que calotas de gelo se estenderam até baixas latitudes. Depósitos glaciais em regiões hoje tropicais sustentam essa interpretação, difícil de conciliar com glaciações comuns.
Nesse cenário, o aumento da cobertura de gelo elevou o albedo, refletindo mais luz solar e intensificando o resfriamento. A saída desse estado teria ocorrido com o acúmulo de dióxido de carbono vulcânico, reforçando o efeito estufa até o degelo global.
the longest and most severe known glacial event preserved in the geologic record is the Sturtian glaciation, which lasted for ~57 million years (717 Ma to 660 Ma) and covered most or all of Earth's surface during the Cryogenian period. pic.twitter.com/CripSwqD9P
— little grey mouse 🐭 (@mouse_math) January 18, 2023
O planeta estava totalmente congelado?
Modelos clássicos descreviam a Sturtiana como um mundo quase imóvel, com oceanos selados por gelo espesso e pouca variabilidade de curto prazo. A circulação atmosférica seria lenta, e estações bem marcadas, improváveis.
Estudos recentes, porém, sugerem um quadro mais dinâmico. Mesmo sob gelo extenso, poderiam existir regiões com gelo mais fino, mares parcialmente abertos e ciclos sazonais detectáveis em certas bacias oceânicas.
Que evidências indicam variações sazonais?
Nas ilhas Garvellach, na Escócia, foram descritos laminitos interpretados como possíveis varves sazonais, depositados em águas relativamente profundas e calmas. Cada par de lâminas pode registrar um ano de sedimentação sob condições frias, porém ativas.
Análises estatísticas da espessura dessas camadas revelam ciclos em escalas anuais, decadais e centenárias. Alguns lembram o ciclo solar de 11 anos e outros se assemelham a modos de variabilidade oceano-atmosfera, comparáveis ao El Niño-Oscilação Sul.
Looking down the Firth of Lorn to the Isles of Scarba & Jura beyond. The Garvellach Isles are peeping around the bottom corner of Mull. It’s becoming firmer in my mind, this’ll be the direction I’ll head when I leave Tobermory in my kayak at the end of August. Exciting! 😊 pic.twitter.com/LEdYlUc2Ze
— Nick Ray (@LifeAfloat) July 3, 2022
Como a ciência investiga esse clima extremo?
A reconstrução da glaciação Sturtiana combina registros geológicos de alta resolução com modelos climáticos numéricos. Juntos, esses métodos permitem testar se as oscilações observadas podem ser explicadas por forçantes solares ou por respostas internas do sistema.
Entre as principais abordagens utilizadas, destacam-se:
Registros sedimentares: laminitos, varves e depósitos glaciais em baixas latitudes.
Análises espectrais: identificação de periodicidades em espessura e composição das camadas.
Modelagem computacional: simulações com diferentes coberturas de gelo e concentrações de CO₂.
Quais são as implicações para o estudo do clima?
As evidências de variabilidade durante a Sturtiana sugerem que, mesmo em estados extremos, o sistema climático mantém algum “ritmo”. Isso enfraquece a visão de uma Terra totalmente paralisada e favorece modelos de bola de neve parcialmente derretida.
Esses resultados ajudam a entender como o clima responde a grandes mudanças em radiação, gases de efeito estufa e configuração continental. A glaciação Sturtiana funciona, assim, como um laboratório natural para testar limites e resiliência do sistema climático terrestre.
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