Mandíbulas fossilizadas revelam que, há 100 milhões de anos, alguns polvos atingiam proporções gigantescas e podiam superar o comprimento de um ônibus
Entre os animais marinhos antigos, poucos são tão discretos no registro fóssil quanto os polvos
Entre os animais marinhos antigos, poucos são tão discretos no registro fóssil quanto os polvos. Formados quase inteiramente por tecidos moles, deixam pouquíssimas pistas em rochas com dezenas de milhões de anos.
Mesmo assim, mandíbulas fossilizadas com sinais de desgaste estão revelando a existência de polvos gigantes com nadadeiras que circulavam entre grandes predadores do Cretáceo.
O que torna o polvo gigante tão raro no registro fóssil?
O principal obstáculo para estudar esses polvos gigantes é a ausência de esqueleto mineralizado. Sem ossos ou conchas, quase todo o corpo se decompõe rapidamente após a morte, restando apenas estruturas mais resistentes.
As mandíbulas, ou bicos, compostas de quitina, funcionam como a principal “assinatura” fossilizável. Novas técnicas de varredura digital em concreções rochosas permitem localizar e descrever esses bicos sem destruir as amostras, ampliando o número de registros conhecidos.
Well, well, well… what have we HERE?! Just yesterday, a paper was published of two giant cretaceous….. octopuses?!
— .🔅𝖆𝖘𝖙𝖗𝖆𝖕𝖎𝖔𝖓𝖙𝖊🔅. (@astrapionte) April 24, 2026
The two species in question belong to the genus Nanaimoteuthis, poorly known Late Cretaceous cirrate (think dumbo) octopuses known primarily from fossil jaws and… pic.twitter.com/iUBx5i2ZVg
Como foram identificados e classificados esses polvos gigantes?
O estudo analisou 27 mandíbulas do Cretáceo Superior, no Japão e na Ilha de Vancouver. Parte do material foi reinterpretada com novos critérios, outra parte revelada por imagens de alta resolução, que expõem detalhes internos dos bicos fossilizados.
Os fósseis foram atribuídos a polvos de nadadeiras, ou cirrados, incluindo o gênero Nanaimoteuthis. Comparações com polvos modernos indicam animais de corpo gelatinoso, adaptados a águas profundas, distintos dos polvos costeiros atuais.
O polvo gigante era realmente um superpredador marinho?
Os bicos fossilizados exibem desgaste intenso, lascas e achatamentos assimétricos, sugerindo processamento frequente de presas com conchas ou ossos. Em polvos vivos, o bico é a ferramenta central na captura e fragmentação de alimento.
Esses padrões sustentam a hipótese de que os polvos gigantes eram caçadores ativos, dividindo nicho com grandes tubarões, mosassauros e plesiossauros. Indícios de predação intensa incluem:
Desgaste concentrado nas bordas cortantes dos bicos;
Marcas compatíveis com esmagamento de estruturas rígidas;
Assimetria no uso, sugerindo preferência de “lado” ao manipular presas.
Quão confiáveis são as estimativas de tamanho do polvo gigante?
As projeções de comprimento usam a relação entre o tamanho do bico e o corpo em espécies atuais. Para Nanaimoteuthis jeletzkyi, estima-se entre 3 e 8 metros, e para N. haggarti, entre 7 e 19 metros, acima de qualquer polvo moderno confirmado.
Os autores, porém, enfatizam a incerteza: apenas as mandíbulas foram preservadas. Sem restos corporais completos, não é possível definir com precisão a forma, a postura ou a extensão dos braços, apenas uma faixa plausível de tamanho.
The ancient oceans were once ruled by giant 'kraken–like' octopuses that measured up to 62 ft-long, new research by à team from Sorbonne University in France reveals.
— Mr Pål Christiansen (@TheNorskaPaul) June 3, 2026
Scientists have discovered evidence of a colossal beast that hunted the Late Cretaceous seas between 72-100… pic.twitter.com/7dz9Nrs8yt
O que esses polvos revelam sobre os mares do Cretáceo?
Os registros de polvos gigantes corrigem a visão de oceanos dominados apenas por vertebrados com ossos ou grandes conchas. Eles mostram que invertebrados de corpo mole também ocupavam o topo de cadeias alimentares, mas quase não fossilizavam.
O desgaste assimétrico dos bicos sugere estratégias específicas de manipulação de presas, possivelmente ligadas a comportamentos complexos. Em síntese, os mares do Cretáceo incluíam não só tubarões e répteis marinhos, mas também polvos gigantes com nadadeiras como predadores influentes.
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