Astrônomos encontraram uma terceira galáxia com pouquíssima matéria escura, e o fato de as três estarem alinhadas pode revelar a assinatura de uma antiga colisão cósmica
A maior parte das galáxias conhecidas é dominada por uma componente invisível chamada matéria escura
A maior parte das galáxias conhecidas é dominada por uma componente invisível chamada matéria escura, responsável por grande parte de sua massa total.
Em muitos casos, esse material supera em dezenas de vezes a massa das estrelas, de modo que galáxias quase sem matéria escura chamam a atenção por sugerirem caminhos de formação mais diversos do que o previsto.
O que torna a matéria escura tão relevante nas galáxias?
A presença de matéria escura é inferida a partir da velocidade com que estrelas e gás orbitam o centro galáctico. Em sistemas como a Via Láctea, essas velocidades só se explicam com um halo escuro que envolve toda a galáxia.
Esse efeito é descrito pela dispersão de velocidades, que mede o quanto as velocidades individuais se afastam do valor médio. Em galáxias anãs, espera-se que a matéria escura domine, pois há poucas estrelas, tornando surpreendente encontrar sistemas em que ela parece ausente.

Como os astrônomos medem a massa de uma galáxia à distância?
Para estimar a matéria escura em galáxias anãs, astrônomos usam a luz das próprias estrelas. Em NGC 1052-DF9, espectros detalhados obtidos com o W. M. Keck Observatory permitiram medir o alargamento das linhas de absorção estelar.
Após corrigir efeitos como binariedade e processos internos nas estrelas, a dispersão de velocidades em DF9 ficou de apenas alguns quilômetros por segundo. Para a massa luminosa medida, isso é compatível com uma galáxia sustentada quase só pela gravidade das estrelas, sem um halo escuro típico.
Por que galáxias quase sem matéria escura intrigam os astrônomos?
A massa total estimada para DF9 é de centenas de milhões de massas solares, praticamente toda explicada pela luz estelar. Situações semelhantes foram encontradas em NGC 1052-DF2 e NGC 1052-DF4, todas associadas ao sistema da galáxia NGC 1052.
Esses objetos não parecem casos isolados, mas parte de uma sequência alongada de galáxias difusas, alinhadas em uma “trilha” cósmica. As velocidades variam de forma progressiva ao longo dessa linha, sugerindo uma origem comum em um evento dinâmico extremo.
Another Galaxy Without Dark Matter
— Black Hole (@konstructivizm) July 3, 2026
Dark matter is thought to account for about 85% of the Universe's total mass, yet there are galaxies that stubbornly refuse to conform to this rule. A team of astronomers led by researchers from Yale, using the Keck Observatory, has discovered… pic.twitter.com/tQ1mlJGQ65
Que cenários explicam a formação dessas galáxias peculiares?
Um cenário propõe que duas grandes galáxias ricas em gás colidiram a alta velocidade. A matéria escura, pouco interativa, atravessou o encontro quase ilesa, enquanto o gás colidiu, aqueceu e se acumulou em uma trilha, mais tarde fragmentada em galáxias menores pobres em matéria escura.
Outra hipótese é a formação de galáxias anãs de maré, criadas a partir de detritos arrancados por forças gravitacionais durante fusões. Para testar essas ideias, pesquisadores consideram algumas estratégias observacionais fundamentais:
Medir a dispersão de velocidades em mais galáxias da trilha.
Buscar gás residual, sobretudo hidrogênio frio, ao longo do alinhamento.
Comparar os dados com simulações numéricas de colisões de galáxias.
O que essas galáxias revelam sobre a natureza da matéria escura?
Se os efeitos observados em galáxias fossem apenas fruto de gravidade modificada, padrões semelhantes deveriam surgir em sistemas de massa comparável.
O fato de milhares de galáxias seguirem o modelo com halos escuros, enquanto poucas fogem à regra, sugere que a matéria escura se comporta como uma substância física separada.
Em colisões, essa substância pode se desacoplar do gás visível, como no famoso Bullet Cluster e, em menor escala, no sistema de NGC 1052. Assim, galáxias como DF2, DF4 e DF9 tornam-se laboratórios cruciais para testar teorias de formação de galáxias e a verdadeira natureza da matéria escura no universo.
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