Mulher de 64 anos aprende a escrever após sair das ruas
Acolhida em casa terapêutica estadual, paulistana recupera autonomia depois de mais de 20 anos em situação de rua e dependência de crack
Uma mulher de 64 anos, identificada apenas pelo nome fictício de “Conceição” para preservar sua identidade, conseguiu escrever o próprio nome pela primeira vez após ser acolhida por uma Casa Terapêutica do governo de São Paulo.
O caso, divulgado pela Agência SP nesta sexta-feira, 26, data em que a Organização das Nações Unidas (ONU) marca o Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas, ilustra os resultados da política estadual de enfrentamento à dependência química.
Nascida em São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, Conceição é mãe de dez filhos e passou mais de duas décadas vivendo nas ruas, período em que enfrentou dependência de substâncias psicoativas, principalmente crack. Ela também sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) durante os anos em situação de rua, o que afetou parte de sua mobilidade.
Acolhimento devolve habilidades e autonomia
Há pouco mais de um ano, Conceição passou a residir em uma unidade do Complexo de Casas Terapêuticas da Lapa, equipamento vinculado à Política Estadual sobre Drogas, sob responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado.
No local, ela retomou contato com habilidades manuais como crochê e bordado e se destacou na cozinha, tendo sido escolhida pelas próprias colegas de moradia como a cozinheira preferida da casa.
A alfabetização, no entanto, é apontada como o episódio mais marcante de sua trajetória recente. Ao comentar o que poderia ter sido diferente em sua vida caso tivesse aprendido a ler quando jovem, ela afirma: “Teria conhecido outros acessos, outras oportunidades e talvez seguido por outros caminhos. Me vi muito limitada profissionalmente e também emocionalmente por tantas dores que não consegui suportar”.
Atualmente, Conceição também recebe sessões de fisioterapia voltadas à reabilitação motora decorrente do AVC. Entre seus planos futuros está o interesse em ensinar costura, bordado, crochê e culinária a outras pessoas em situações de vulnerabilidade semelhantes às que ela viveu.
Programa já atendeu 1,4 mil pessoas no estado
O coordenador do Complexo de Casas Terapêuticas da Lapa, Rafael Olivatto, avalia o caso como representativo da proposta do serviço: “Sua trajetória demonstra a capacidade transformadora da metodologia das Casas Terapêuticas. O atendimento biopsicossocial qualificado oferecido nesses equipamentos possibilita mudanças profundas e reais na vida das pessoas”.
As Casas Terapêuticas foram inauguradas em janeiro de 2023 e já receberam cerca de 1,4 mil pessoas em todo o estado até maio de 2026.
O atendimento é gratuito e dividido em quatro fases — Acolher, Despertar, Transformar e Caminhar —, que vão da recuperação de hábitos básicos de autocuidado até a busca por autonomia financeira e moradia própria.
Após a conclusão do processo, os acolhidos continuam sendo monitorados pela equipe técnica por ao menos seis meses, como forma de prevenir recaídas. As unidades já funcionam na capital, em Osasco e na região de São José do Rio Preto.
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