Transtornos mentais já são 2ª causa de afastamento do trabalho
Casos de ansiedade e depressão tiveram alta de 15% e ficam atrás apenas de doenças na coluna entre os motivos de licença
O Brasil registrou em 2025 o maior número de afastamentos trabalhistas por transtornos mentais da última década, de acordo com o Ministério da Previdência Social.
Os casos de ansiedade e depressão subiram 15% em relação ao ano anterior, e passaram a ocupar a segunda posição entre as causas de licença no país, superados apenas pelas doenças de coluna. O resultado supera o recorde já alcançado em 2024.
Levantamentos da Organização Mundial da Saúde (OMS) também apontam o país como o de maior proporção de pessoas com ansiedade no mundo: 18,6% da população convivia com o transtorno na época em que a pesquisa foi realizada.
Em escala global, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que riscos psicossociais provocam a perda de cerca de 45 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (DALY) e que depressão e ansiedade custam 12 bilhões de dias úteis por ano, o equivalente a US$ 1 trilhão em perdas anuais.
Pressão por desempenho e papel da tecnologia
Para o psiquiatra Rodrigo Martins Leite, professor-assistente do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (IPq/FMUSP) e coordenador do grupo de Psiquiatria Social e Cultural do IPq (Prosol), o avanço tecnológico impôs ritmo mais acelerado às exigências sociais, no trabalho, na universidade e em outras esferas. Segundo ele, isso resulta em sensação difundida de inadequação diante das demandas crescentes.
Leite afirma que esse cenário tem levado à busca por recursos que prometem melhorar o desempenho cognitivo e emocional, inclusive entre pessoas sem diagnóstico. Ele cita a prática do uso de medicamentos psiquiátricos por indivíduos saudáveis, fenômeno que classifica como “doping em saúde mental”: “As pessoas têm precisado se medicar para lidar com circunstâncias cada vez mais desafiadoras, enquanto fatores de proteção e saúde mental ficam em segundo plano”.
Andrés Antúnez, professor do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, descreve a tecnologia como elemento que reduz o contato presencial entre as pessoas, sobretudo entre crianças e jovens.
Para ele, o desenvolvimento tecnológico avança em velocidade superior à capacidade de resposta de áreas como medicina, psicologia, assistência social e terapia ocupacional, o que resulta em intervenções de caráter mais paliativo do que estruturante.
Leite alerta ainda para os efeitos do uso intenso de telas sobre grupos específicos, como crianças, adolescentes e idosos, com redução da convivência social e do desenvolvimento de repertório comportamental. Em pessoas mais velhas, segundo o psiquiatra, esse padrão pode ocultar problemas como solidão e isolamento.
Autodiagnóstico e mercado da saúde mental
Outro fator citado pelos especialistas é a disseminação de diagnósticos obtidos fora de avaliação clínica, muitas vezes em redes sociais como TikTok e Instagram. Leite defende que o diagnóstico psiquiátrico depende de observação direta por profissional habilitado e de relato detalhado do paciente, processo que pode levar meses ou anos, sem garantia de conclusão definitiva.
O psiquiatra também relata mudança na relação entre pacientes e tratamento, com pessoas chegando às consultas já convencidas de um diagnóstico ou de uma medicação específica, o que compromete o vínculo terapêutico.
Segundo ele, essa dinâmica inverteu uma lógica anterior, em que o excesso de medicalização era atribuído a iniciativa médica: “Antes, a hipermedicalização era um ônus dos médicos. Mas agora é um lema adotado pela própria sociedade”, disse ao Jornal da USP.
Antúnez destaca a dimensão coletiva do sofrimento psíquico, que se estende a familiares e pessoas próximas ao paciente, além de apontar a existência de interesses financeiros ligados à medicalização de questões emocionais.
Ele questiona a existência de soluções farmacológicas para o sofrimento inerente à vida humana e aponta a melhoria das relações interpessoais como caminho alternativo.
Leite acrescenta que o acesso a tratamento psiquiátrico privado costuma estar concentrado em públicos de classe média e média-alta, com capacidade de custear consultas e medicamentos. Segundo ele, fatores como pobreza, desemprego, exposição à violência, moradia precária e alimentação inadequada têm relação direta com o adoecimento mental da população de baixa renda.
O psiquiatra também afirma que a rede pública de saúde mental não acompanha o crescimento da demanda da população, configurando um atraso estrutural na oferta de serviços. Para ele, esse descompasso reflete diretamente na falta de investimento em políticas públicas voltadas à área, em um contexto de transformação constante das necessidades de saúde mental no país.
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