O piti de Erika Hilton, o ataque à verdade e a mesquinharia identitária
Cobrança feita por Erika Hilton mostra que, no jogo eleitoral, vale tudo: até mesmo usar a bandeira identitária para ganhar mais dinheiro do partido
A cobrança feita pela deputada federal Erika Hilton ao PSOL expõe uma contradição que dificilmente passa despercebida. Ao questionar a distribuição de recursos partidários e sugerir que fatores como racismo, transfobia ou preconceitos internos possam explicar diferenças de tratamento dentro da legenda, a parlamentar – que se apresenta como uma paladina na verdade – transparece que, se for do seu interesse, estaria ela disposta a utilizar falácias e argumentos não condizentes com a verdade para reivindicar – aí sim – um privilégio dentro do partido.
Os números da eleição de 2022 ajudam a colocar o debate em perspectiva. Naquele pleito, Erika não era uma parlamentar consolidada nem ocupava posição histórica na estrutura do PSOL como hoje. Ainda assim, recebeu cerca de 1,5 milhão de reais para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, dos quais aproximadamente 1,4 milhão de reais tiveram origem nos recursos controlados pela direção partidária. É um valor considerável. O montante a colocou entre os principais candidatos da legenda em São Paulo, atrás apenas de nomes como Guilherme Boulos, Ivan Valente, Sâmia Bomfim e Luiza Erundina.
Pragmatismo político x agenda identitária de Erika Hilton
A distribuição dos recursos, via de regra, evidencia uma escolha política pragmática. Partidos não repartem fundos eleitorais de forma automática ou igualitária. Ou pensando unicamente na agenda identitária. A definição costuma obedecer a critérios de viabilidade eleitoral, projeção pública, representatividade e estratégia institucional. Foi exatamente esse mecanismo que, em 2022, levou a direção do PSOL a apostar fortemente na candidatura de Erika Hilton. Tanto que ela obteve 265 mil votos. Estratégia bem-sucedida, então.
A direção da federação Rede-PSOL nunca se negou a financiar a campanha de Erika. Mas, pelo desabafo público da parlamentar, Juliano Medeiros – presidente do consórcio -, Erika dá a entender que critérios historicamente utilizados por qualquer partido foram simplesmente ignorados em nome de uma rinha pessoal e sem qualquer tipo de precedente racional.
Isso não significa que divergências internas sejam ilegítimas ou que os critérios adotados pela direção não possam ser questionados. Para além do pragmatismo, dirigentes de partidos também gostam de agraciar amigos. Mas, mesmo neste caso, o coleguinha da vez precisa ter alguma viabilidade eleitoral.
Justiça só quando é do meu interesse
O episódio também ilustra um pensamento atroz: certos políticos enxergam o sistema como justo quando são beneficiados por ele e passam a contestá-lo quando deixam esse protagonismo.
A controvérsia revela outro aspecto importante. Comparações entre campanhas para cargos diferentes exigem honestidade intelectual. Disputas ao Senado normalmente demandam investimentos muito superiores aos de campanhas para deputado federal, e Erika sabe disso. Por isso, diferenças nominais de recursos entre candidaturas nem sempre indicam tratamento desigual.
E o pior de tudo: ao colocar uma questão ideológica no centro de uma lógica estritamente partidária, a deputada federal reduz seu maior ativo a um instrumento de barganha. Algo extremamente condenável.
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