A árvore escondida nas montanhas de Taiwan que ultrapassa 84 metros e guarda um dos maiores tesouros climáticos da Ásia
A descoberta uniu conhecimento indígena, tecnologia laser e expedições difíceis para revelar gigantes florestais que armazenam carbono
Durante séculos, o povo indígena Rukai de Taiwan falava de uma árvore tão alta que tocava a lua. Os cientistas levaram nove anos para descobrir que eles tinham razão. Escondida nos vales mais inacessíveis das montanhas da ilha, a Espada Celestial do Rio Da’an foi finalmente confirmada como a árvore mais alta de toda a Ásia Oriental, com 84,1 metros de altura, e a história de como ela foi encontrada é tão impressionante quanto o gigante em si.
A ilha que escondia um recorde dentro das suas montanhas
Taiwan tem aproximadamente o tamanho da Suíça, mas concentra 258 picos com mais de 3.000 metros de altura nesse espaço reduzido. Essa topografia extrema gera uma biodiversidade extraordinária, com cerca de 5.000 espécies de plantas e aproximadamente 950 milhões de árvores distribuídas por habitats que vão da floresta tropical ao nível do mar até a tundra alpina nos cumes.
A exploração madeireira industrial entre 1912 e 1991 devastou grandes porções da floresta primária da ilha. Mas os vales mais íngremes e remotos se mostraram fisicamente inacessíveis para as operações de extração, e foi exatamente nesses locais que antigos bosques de abetos Taiwania cryptomerioides sobreviveram intactos por séculos, completamente fora do alcance dos registros científicos oficiais.

Nove anos de busca por uma árvore que “atinge a lua”
A busca formal começou em agosto de 2014, quando pesquisadores do Instituto de Pesquisa Florestal de Taiwan partiram para a área de conservação de Cilan em busca das chamadas “Três Irmãs de Cilan”, três abetos gigantes conhecidos pelos moradores locais, mas nunca medidos cientificamente. O mais alto atingiu 69,3 metros, com quase três metros de diâmetro de tronco, atraindo atenção internacional em 2017. O grupo responsável pela busca se autodenominou os “buscadores de árvores de Taiwan”, e seus achados estão documentados em estudo publicado na revista Frontiers in Forests and Global Change.
O problema era evidente: com 950 milhões de árvores espalhadas por vales que podiam levar dias para ser alcançados a pé, uma busca ao nível do solo em toda a ilha era inviável. A equipe precisava de outro caminho.
Leia também: Kant, filósofo alemão: “Tenha coragem de usar o seu próprio entendimento”
Como a tecnologia laser mapeou 941 gigantes escondidos
A solução veio por meio de uma parceria com especialistas em sensoriamento remoto da Universidade Nacional Cheng Kung, que utilizaram o LiDAR, tecnologia que emite pulsos de laser de aeronaves e calcula medições precisas de altitude pelo tempo de retorno de cada pulso. O mapeamento produziu uma visão tridimensional detalhada da floresta, mas a topografia extrema da ilha criou um problema imediato: 93% das árvores candidatas foram medidas incorretamente pelo algoritmo, que confundia árvores próximas a penhascos com gigantes ainda maiores do que eram.
Para corrigir o erro em escala, centenas de cientistas cidadãos taiwaneses foram recrutados a partir de 2020 para revisar manualmente as imagens de perfil LiDAR. O esforço coletivo resultou, no final de 2022, no Mapa das Árvores Gigantes de Taiwan: um registro verificado com os seguintes dados:

A expedição que confirmou o maior recorde da Ásia Oriental
Com o mapa em mãos, a equipe organizou uma nova expedição no feriado do Ano Novo Lunar de janeiro de 2023. Para chegar até a árvore candidata mais promissora, foi necessário percorrer 20 quilômetros ao longo do rio, seguidos de dois dias de caminhada íngreme em terreno sem trilha. Quando os alpinistas chegaram ao topo e lançaram a fita métrica até o chão da floresta, o número que apareceu foi 84,1 metros.
A árvore recebeu o nome de Espada Celestial do Rio Da’an, um título que dialoga diretamente com o nome que o povo indígena Rukai já lhe dava há gerações: “a árvore que atinge a lua”. O conhecimento cultural antecedeu em séculos qualquer documentação científica e foi determinante para direcionar os pesquisadores às florestas certas.
Por que essas árvores importam muito além do recorde
Um levantamento de densidade de carbono realizado em 2024 no vale da chamada “Árvore Tao”, em colaboração com 15 cientistas cidadãos, mediu o armazenamento total de carbono da floresta em 1.384,5 megagramas por hectare, sem nem contabilizar os sistemas radiculares subterrâneos. Os pesquisadores concluíram que as florestas gigantes de Taiwania estão entre os ambientes com maior densidade de carbono na Terra, comparáveis às florestas primárias mais famosas do mundo.
Uma floresta que sobreviveu porque os madeireiros simplesmente não conseguiam chegar até ela agora se revela um dos maiores tesouros climáticos do planeta. A busca pela árvore mais alta da Ásia Oriental começou como uma aventura científica e terminou como um argumento urgente pela preservação do que ainda resta nas montanhas de Taiwan.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)