A IA virou bode expiatório?
Quase ninguém atribui sua demissão à IA, mas quem evita usar a tecnologia aparece com mais frequência entre demitidos
Apenas 1% dos trabalhadores americanos demitidos acredita que a inteligência artificial teve participação em sua perda de emprego. O dado contrasta com a frequência cada vez maior com que empresas de tecnologia associam cortes de pessoal ao avanço da IA.
Com base em dados de uma pesquisa realizada no primeiro trimestre de 2026 pela consultoria Gallup, o que mais chamou atenção foi a distância entre a percepção dos executivos e a dos trabalhadores.
A pesquisa também identificou diferenças entre os modelos de trabalho, mas os dados divulgados não permitem concluir que o trabalho remoto, por si só, aumente o risco de demissão. O tema ganhou atenção porque diversas empresas passaram a exigir o retorno presencial nos últimos anos.
Parte das empresas pode estar utilizando a inteligência artificial como justificativa para cortes que possuem outras origens. Segundo Sam Altman, diretor executivo da OpenAI, algumas companhias estariam culpando a IA por demissões que fariam de qualquer maneira.
Uma matéria do portal Fast Company lembra uma pesquisa realizada pela BambooHR em 2024, em que um quarto dos executivos entrevistados afirmou que exigências de retorno ao escritório poderiam servir para estimular saídas voluntárias de funcionários.
Os dados do levantamento da Gallup mostram ainda que os trabalhadores demitidos tinham maior probabilidade de evitar o uso de inteligência artificial. Segundo o levantamento, eles eram 62% mais propensos do que os profissionais empregados a não utilizar essas ferramentas regularmente.
Profissionais de tecnologia que utilizam inteligência artificial regularmente apresentam um risco de demissão cerca de três vezes menor do que aqueles que raramente usam essas ferramentas.
O levantamento indica que essa diferença persiste entre diversas faixas etárias, níveis de escolaridade e setores de atividade. Para a Gallup, a familiaridade com a tecnologia passou a funcionar como uma característica associada a maior permanência no emprego.
Isso não significa que a inteligência artificial esteja ausente das decisões corporativas. A própria Fast Company observa que muitos desligamentos classificados como redução de custos, reestruturação ou eliminação de funções podem estar ligados aos investimentos crescentes em infraestrutura de IA, especialmente nas grandes empresas de tecnologia.
Empresas como Meta, Microsoft e Snap anunciaram cortes recentemente. No caso da Cloudflare, seus fundadores associaram explicitamente a recente redução de cerca de 20% do quadro de funcionários a uma mudança estratégica para adaptar a operação ao avanço dos agentes de IA.
Enquanto executivos frequentemente apontam a inteligência artificial como uma das principais forças por trás das mudanças no mercado de trabalho, os trabalhadores demitidos relatam com mais frequência fatores como reorganizações internas, cortes de custos e mudanças nas políticas de trabalho.
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