Centenas de esqueletos encontrados em um lago congelado do Himalaia foram atribuídos a uma única tragédia antiga, até que análises de DNA revelaram uma história muito mais complexa
Roopkund, conhecido como “lago dos esqueletos”, é um dos enigmas arqueológicos mais intrigantes do Himalaia indiano
Roopkund, conhecido como “lago dos esqueletos”, é um dos enigmas arqueológicos mais intrigantes do Himalaia indiano.
Localizado a mais de 5.000 metros de altitude, ele revela, durante o degelo, ossos humanos espalhados pela margem e pelo fundo raso. Estudos recentes vêm desmontando a antiga ideia de uma única tragédia e apontam para uma história muito mais complexa.
O que é o Lago dos Esqueletos de Roopkund?
Ao longo do século XX, popularizou-se a versão de que uma caravana teria sido morta por uma tempestade de granizo em um único desastre. Livros, documentários e reportagens repetiram essa narrativa simples, que parecia explicar todos os esqueletos encontrados.
Com o avanço da genética e da datação, essa visão linear foi posta em dúvida. Hoje, Roopkund é visto como um ponto de encontro involuntário de diferentes grupos humanos, separados por séculos e por grandes distâncias geográficas.
En 1942, plus de 200 squelettes humains du IX siècle ont été découverts dans le lac glaciaire de Roopkund, en Inde. Selon les chercheurs, les personnes ont tous été exécutés au même moment de façon naturelle. Une tempête d'énormes grêlons se serait abattue sur eux. pic.twitter.com/5BOG1jvFvM
— Bouteflikov™ (@Bouteflikov) March 22, 2021
Quais são as principais descobertas genéticas e cronológicas?
Estudos com DNA antigo identificaram, no mínimo, três conjuntos populacionais distintos. A maioria dos indivíduos apresenta ancestrais do Sul da Ásia, mas há também pessoas ligadas geneticamente ao Mediterrâneo Oriental e um caso associado ao Sudeste Asiático.
As datações por radiocarbono indicam que o grupo sul-asiático remonta aproximadamente ao século IX. Já o grupo com ancestralidade mediterrânea foi datado perto do início do século XIX, revelando um intervalo de cerca de mil anos entre as presenças humanas no lago.
O que revelam as análises de dieta e parentesco?
A análise de isótopos estáveis nos ossos permite inferir padrões de alimentação ao longo da vida. Indivíduos sul-asiáticos exibem perfis compatíveis com dietas típicas da região, enquanto o grupo mediterrâneo mostra sinais ligados a ambientes distantes do Himalaia, reforçando a hipótese de viajantes recentes.
Os testes também investigaram laços de parentesco entre os esqueletos analisados. Não foram encontrados parentes próximos, o que torna improvável que se trate de um único clã, exército ou comitiva coesa; o cenário aponta para múltiplas jornadas interrompidas.
El Lago Roopkund.
— RelatandoHistoria (@relatandohisto1) January 11, 2021
Situado en el Himalaya, a más de 5000 m de altitud. En él hay alrededor de 600 esqueletos de diferentes tribus. Lo curioso es que hay más de mil años de diferencia entre ellos. Unos esqueletos son del s. IX y otros del s. XIX.
¿Que hostias ocurrió aquí? pic.twitter.com/Am1rQFK2wU
Por que pessoas tão diferentes foram parar em Roopkund?
Pesquisadores relacionam o lago a antigas rotas de peregrinação ligadas ao culto da deusa Nanda Devi. Para organizar as principais hipóteses sobre a presença de grupos tão diversos em um local tão remoto, destacam-se alguns fatores recorrentes.
Fluxo secular de fiéis locais associados ao festival Nanda Devi Raj Jat, cruzando desfiladeiros de alta altitude a pé.
Presença documentada de indivíduos com DNA geneticamente ligado à região do Mediterrâneo oriental durante o século XIX.
Tempestades severas com granizo de proporções letais e hipotermia súbita, surpreendendo viajantes sem abrigos topográficos.
Análise de paleogenômica que quebrou o mito do evento único, revelando intervalos de deposição separados por séculos.
Quais são os limites das explicações atuais para Roopkund?
Os métodos disponíveis indicam ancestralidade, datas aproximadas e dietas, mas não explicam com precisão a causa das mortes. A ausência de sinais claros de grandes epidemias nos fragmentos de DNA não exclui doenças; apenas mostra que não há evidência molecular robusta até agora.
Deslizamentos, ciclos de congelamento e degelo e a retirada de ossos por visitantes degradaram o contexto original do sítio. Mesmo assim, o Lago dos Esqueletos de Roopkund ilustra como o DNA antigo e a análise isotópica podem transformar narrativas consolidadas e abrir novas perguntas sobre mobilidade humana em alta montanha.
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