Especialistas concordam: “Até 2030, a inteligência artificial consumirá a mesma quantidade de água que 1,3 bilhão de pessoas por ano.”
O crescimento dos data centers revela o custo invisível da inteligência artificial em água, energia, emissões e pressão sobre regiões vulneráveis
Cada vez que você pede ao ChatGPT para escrever um e-mail, uma garrafa d’água é consumida nos bastidores para resfriar os servidores que processam sua resposta. Agora imagine isso acontecendo bilhões de vezes por dia, todos os dias, e você terá uma ideia do tamanho do problema que a inteligência artificial está criando para o planeta.
O que a ONU descobriu sobre o impacto da IA na água
Um relatório do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) revelou que, até 2030, o consumo de água pelos data centers que sustentam a IA poderá dobrar, chegando a impressionantes 9,3 trilhões de litros por ano. O estudo é considerado a análise mais ampla já realizada sobre os impactos ambientais da inteligência artificial.
Para ter uma dimensão real desse número: o volume equivale ao consumo doméstico básico de 1,3 bilhão de pessoas, a mesma população de toda a África Subsaariana. O alerta da ONU deixa claro que o avanço tecnológico e a crise hídrica global estão em rota de colisão direta.

Por que os data centers consomem tanta água
Os data centers funcionam como o cérebro físico da inteligência artificial, processando milhões de operações simultâneas. Esse trabalho intenso gera calor extremo, e o método mais eficiente para controlar a temperatura é o resfriamento a água. Segundo Bikash Koley, vice-presidente de infraestrutura global do Google, esse sistema reduz o consumo de energia em até 10% em relação ao resfriamento a ar, mas o custo ambiental é alto demais para ser ignorado.
Uma pesquisa da Universidade da Califórnia calculou que o treinamento completo do modelo GPT-3 consumiu cerca de 700 mil litros de água potável. E o que dizer do ChatGPT-5? Estimativas da própria ONU indicam que seu treinamento consumiu cerca de 1 bilhão de litros de água, além de ocupar uma área equivalente a 215 campos de futebol.
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Quanto de energia a IA vai consumir até o fim da década
O problema não se limita à água. O mesmo relatório da UNU-INWEH projeta que os data centers de IA poderão demandar 945 TWh de eletricidade por ano até 2030. Para entender a escala, esse número equivale a três vezes o consumo energético combinado de Paquistão, Bangladesh e Nigéria.
Os principais impactos ambientais projetados pela ONU para 2030 incluem:
- Consumo de 9,3 trilhões de litros de água por ano pelos data centers
- Emissão de até 399 milhões de toneladas de CO₂ associadas à infraestrutura digital
- Geração de aproximadamente 2,5 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano
- Expansão territorial dos data centers de cerca de 2.664 para mais de 9.000 milhas quadradas
- Demanda elétrica equivalente à 11ª maior do mundo, se os data centers fossem um país

O Brasil e as regiões vulneráveis entram na mira da expansão tecnológica
Dois terços dos novos data centers construídos nos Estados Unidos desde 2022 foram instalados em regiões com alto estresse hídrico, segundo relatório da Agência Internacional de Energia. Um único data center médio de 100 megawatts consome cerca de 2 milhões de litros de água por dia, o equivalente ao uso doméstico de 6.500 famílias. No Brasil, o mercado de data centers ainda está em expansão acelerada, mas o pesquisador Marcelo Casali, da UFSM, alerta que, mesmo com legislação ambiental relativamente robusta, ainda faltam ações concretas das empresas e um debate público mais profundo sobre os impactos dessa transformação digital.
Na Europa, o cenário já preocupa agricultores e gestores públicos. Ángel Estanislao Gálve Andrés, presidente do sindicato agrícola COAG Castilla La Mancha, resumiu bem o dilema: “Os centros de dados consomem o que me parece ser uma quantidade excessiva de água, quando já temos escassez para a agricultura e o consumo humano.”
A IA pode crescer sem destruir o planeta
A questão não é abandonar a inteligência artificial. A tecnologia oferece benefícios reais para a ciência, a economia e a sociedade. O verdadeiro desafio, como apontam os especialistas da ONU, é garantir que essa expansão aconteça dentro de limites sustentáveis, com regulação transparente, métricas de consumo obrigatórias e políticas que protejam comunidades já vulneráveis à escassez de recursos.
O relógio não para. Cada consulta feita a uma plataforma de IA gera impacto real no planeta. Cobrar das empresas e dos governos respostas concretas sobre o uso responsável da água e da energia não é uma pauta do futuro distante. É urgente, e começa agora.
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