De Sarney aos Bolsonaro, passando por Cunha e Tarcísio, o oportunista agora é Negão

25.06.2026

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O Antagonista

De Sarney aos Bolsonaro, passando por Cunha e Tarcísio, o oportunista agora é Negão

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Ricardo Kertzman
6 minutos de leitura 16.06.2026 08:00 comentários
Análise

De Sarney aos Bolsonaro, passando por Cunha e Tarcísio, o oportunista agora é Negão

O eleitor local é apenas um detalhe administrativo entre a transferência do domicílio e o registro da candidatura

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Ricardo Kertzman
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De Sarney aos Bolsonaro, passando por Cunha e Tarcísio, o oportunista agora é Negão
Foto: Billy Boss/Câmara dos Deputados

Em março de 1990, José Sarney deixou a Presidência da República sob uma rejeição que hoje poucos políticos conseguem imaginar.

O Brasil encerrava a década de 1980 mergulhado na hiperinflação. Apenas em 1989, os preços haviam disparado mais de 1.700%. O salário do trabalhador perdia valor entre o recebimento e a ida ao supermercado.

Remarcações diárias de preços eram rotina. Congelamentos fracassavam. Planos econômicos fracassavam. A economia fracassava. Embora a hiperinflação tenha explodido antes de seu governo e continuado após sua saída, foi Sarney quem se tornou o rosto político daquele desastre.

Estados à venda

O mesmo homem que chegara ao Planalto cercado pela aura da redemocratização deixava Brasília carregando o desgaste de uma população exausta, empobrecida e sem qualquer perspectiva de estabilidade econômica.

Não por acaso, o retorno à vida política exigia cálculo. Foi então que o veterano maranhense descobriu uma “intensa ligação” com o Amapá. Transferiu seu domicílio eleitoral, candidatou-se ao Senado e venceu. A operação era legal. Mas inaugurava uma pergunta que continua atual: um estado deve servir de abrigo para políticos cuja trajetória foi construída em outro lugar?

O caso Sarney não foi um acidente. Foi um precedente. Ao longo das décadas seguintes, a legislação eleitoral brasileira e a interpretação extremamente flexível dos tribunais transformaram o conceito de domicílio eleitoral em algo meramente simbólico.

Infidelidade territorial

Vínculos patrimoniais, profissionais, políticos ou afetivos passaram a justificar candidaturas em locais onde o candidato jamais construiu sua trajetória pública. Na prática, criou-se uma espécie de mercado federativo sem fronteiras.

Quando um estado se torna inconveniente, o bilontra eleitoral procura outro. Quando uma disputa local se mostra difícil, busca-se uma praça menos raivosa. Quando a sobrevivência política exige uma nova geografia, muda-se o endereço. Simples assim.

O “aplique” atravessa partidos, ideologias, governos e gerações. Não pertence à esquerda, ao centro ou à direita. Pertence à cultura política brasileira e aos eleitores que não querem nem saber. Que não estão nem aí.

O carioca que virou paulista

O atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é mais um exemplo desse mecanismo eleitoreiro.

Diferentemente de José Sarney ou mesmo de Eduardo Cunha, que abordarei a seguir, ninguém questiona sua qualificação técnica. Sua carreira na administração pública é respeitada até por adversários. Mas a questão aqui não é competência, e sim representação política.

Até a eleição de 2022, Tarcísio era um carioca cuja vida profissional se desenvolveu principalmente em Brasília. Foi diretor do DNIT durante os governos Lula e Dilma. Ocupou cargos relevantes ligados ao PAC. Mais tarde, tornou-se ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro. Em seguida, sem jamais ter exercido mandato em São Paulo, tornou-se candidato ao governo paulista.

Vim, vi e venci

Naturalmente, sem constrangimento ou maiores questionamentos, o mesmo personagem que transitou pelos governos petistas integrou o principal governo conservador das últimas décadas, e transformou-se no principal líder político do maior estado da Federação. Dependendo da conveniência do momento, é petista, bolsonarista, carioca ou paulista.

E se Tarcísio representa a versão Faria Lima do fenômeno, Eduardo Cunha representa a versão caipira – atenção: sou de Minas e posso brincar com isso.

Toda sua carreira foi construída no Rio de Janeiro. Vereador, deputado federal, presidente da Câmara dos Deputados. Sua base política, seus eleitores, seus aliados e seus adversários sempre estiveram no Rio. De repente, porém, Minas Gerais é seu estado natal.

Franquia bolsonarista

A mudança ocorreu justamente porque sua filha, Dani Cunha, consolidou-se no Rio. O ex-deputado, então, transferiu seu domicílio eleitoral para Belo Horizonte, passou a investir na construção de visibilidade política em Minas e ampliou sua presença em veículos de comunicação – rádios – voltados ao público evangélico, segmento que sempre foi uma de suas principais bases de apoio.

Nada disso é ilegal, obviamente. Mas também não é um gesto espontâneo. Minas Gerais não é um chamado do destino ou dos mineiros a Cunha. É só uma oportunidade eleitoral que não quer perder.

E ninguém tem levado essa lógica tão longe quanto a família Bolsonaro. Carlos, o Carluxo, passou mais de duas décadas como um inútil vereador do Rio de Janeiro. Toda sua trajetória política foi construída na capital fluminense. Ainda assim, surge agora como potencial candidato ao Senado por… Santa Catarina!

O eleitor é mesmo um trouxa

Já Hélio Lopes, o Hélio Negão, deputado federal eleito pelo Rio de Janeiro e conhecido nacionalmente por sua fidelidade pessoal a Jair Bolsonaro – e absolutamente nada mais! – surge agora como possível candidato ao Senado por Roraima. Sim, Roraima! Por quê? Ora, o povo lá deve ser mais idiota.

Em todos estes casos, a lógica é rigorosamente a mesma. Não importa onde o político construiu sua história, não importa onde consolidou sua base eleitoral, não importa nem sequer se possui relação com a comunidade local. O que importa é identificar onde existe uma vaga disponível e, para lá, se mandar de mala e cuia.

A defesa dessas manobras costuma ser sempre a mesma: a lei permite e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aceita – pronto! A jurisprudência autoriza, é verdade, mas nenhuma dessas respostas enfrenta a questão central.

Andarilhos sem vínculos

O Senado foi criado para representar os estados. A Câmara dos Deputados, embora represente o povo, pressupõe algum vínculo entre representantes e representados. Quando políticos passam a circular pelo país em busca do melhor ponto de aterrissagem eleitoral, estados deixam de ser comunidades para se tornarem meros fornecedores de votos.

Sarney precisava de um estado e encontrou o Amapá. Tarcísio precisava de um estado e encontrou São Paulo. Eduardo Cunha precisava de um estado e encontrou Minas Gerais. Carlos Bolsonaro precisa de um estado e encontrou Santa Catarina. Hélio Negão precisa de um estado e encontrou Roraima.

Ou seja: mudam os nomes, os partidos, as ideologias, os discursos e mudam até as décadas. Porém, permanece a mesma convicção: a de que o eleitor local é apenas um detalhe administrativo entre a transferência do domicílio e o registro da candidatura. E o pior é que é verdade.

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