A psicologia explica por que crianças dos anos 60 e 70 eram mais resilientes: não foi a dureza, foi a autonomia

25.06.2026

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A psicologia explica por que crianças dos anos 60 e 70 eram mais resilientes: não foi a dureza, foi a autonomia

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8 minutos de leitura 14.06.2026 17:03 comentários
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A psicologia explica por que crianças dos anos 60 e 70 eram mais resilientes: não foi a dureza, foi a autonomia

O que as crianças de antigamente tinham que as de hoje não têm mais, segundo a psicologia

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A psicologia explica por que crianças dos anos 60 e 70 eram mais resilientes: não foi a dureza, foi a autonomia
A psicologia explica por que crianças dos anos 60 e 70 eram mais resilientes: não foi a dureza, foi a autonomia

Crianças das décadas de 1960 e 1970 não eram mais fortes porque sofreram mais. A psicologia contemporânea aponta outra explicação: elas tiveram mais espaço para errar, resolver problemas e lidar com frustrações sem intervenção adulta imediata. Esse modelo de criação, que combinava vínculo afetivo com autonomia progressiva, desenvolveu habilidades emocionais que hoje são objeto de estudo científico intenso.

O que a psicologia entende por autonomia na infância e por que ela importa?

A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida pelos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, identifica três necessidades psicológicas básicas que precisam ser atendidas para que uma criança se desenvolva de forma saudável: autonomia (sentir que pode fazer escolhas), competência (confiar em suas próprias habilidades) e vínculo (sentir-se parte de uma relação genuinamente afetuosa). Quando as três são satisfeitas de forma equilibrada, o desenvolvimento emocional é robusto. Quando o controle parental excessivo suprime a autonomia e a competência, os efeitos negativos são mensuráveis.

Não se trata de abandonar a criança. A diferença entre autonomia saudável e negligência real é precisa na literatura científica: estudos publicados no Children and Youth Services Review (ScienceDirect, 2024) com mais de 1.000 crianças mostram que negligência genuína, entendida como a falha consistente em atender necessidades emocionais, físicas e educacionais básicas, está diretamente associada a piores desfechos socioemocionais. O que beneficia o desenvolvimento é o oposto: presença afetuosa com menos controle, não ausência de cuidado.

A psicologia explica por que crianças dos anos 60 e 70 eram mais resilientes: não foi a dureza, foi a autonomia
Quatro momentos de autonomia: subindo em árvore, pulando corda, desenhando no chão e bicicleta no muro

O que caracterizou a infância dos anos 60 e 70 que hoje não existe mais?

A diferença mais documentada entre a infância daquelas décadas e a atual não é o nível de afeto parental, mas o nível de supervisão direta e constante. As crianças passavam horas na rua sem adultos por perto, organizavam brincadeiras entre si, resolviam conflitos sem mediação e tomavam decisões cotidianas dentro de um ambiente que, embora menos supervisionado, tinha estrutura afetiva em casa.

Esse modelo criou condições específicas para o desenvolvimento de habilidades que hoje são estudadas como componentes da resiliência emocional:

1
Resolução de problemas sem dependência imediata Sem adulto disponível para intervir, a criança desenvolveu o hábito de tentar soluções próprias antes de pedir ajuda. Esse exercício repetido constrói autoconfiança e senso de competência.
2
Tolerância à frustração e ao erro Perder, errar e se machucar levemente sem que um adulto aparecesse imediatamente ensinou que frustrações são temporárias e administráveis. Esse aprendizado acontece pela experiência, não pela instrução.
3
Negociação social entre pares Organizar brincadeiras em grupos heterogêneos exigia negociação, persuasão e mediação de conflitos sem árbitro externo. São habilidades que a psicologia hoje reconhece como centrais para o funcionamento social adulto.
4
Convivência com o tédio A ausência de estimulação constante forçava a criança a criar — brincadeiras, histórias, ocupações. A pesquisa atual aponta que o tédio não mediado é precursor do pensamento criativo e da capacidade de autoentretenimento.

O que a ciência atual diz sobre o impacto da superproteção parental?

O modelo oposto ao das décadas de 60 e 70 tem nome: parentalidade helicóptero (helicopter parenting), termo que descreve pais que controlam, monitoram e intervêm de forma excessiva e developmentalmente inapropriada na vida dos filhos. Uma revisão sistemática publicada na Frontiers in Psychology (2022), com 38 estudos incluídos, identificou relação direta entre parentalidade helicóptero e sintomas de ansiedade e depressão em filhos adolescentes e adultos jovens.

Os resultados foram confirmados em escala maior por uma revisão de escopo publicada no Journal of Genetic Psychology (2024), que analisou 23 estudos publicados entre 2020 e 2024: a superproteção parental estava associada de forma consistente a maior ansiedade, depressão e estresse em universitários, com a autonomia funcionando como mediador central dessa relação.

Por que a superproteção produz o efeito oposto ao desejado?

A explicação está na Teoria da Autodeterminação: pais que tomam decisões pelo filho, removem obstáculos antes que ele os enfrente e intervêm em todos os conflitos privam a criança da experiência de sentir-se competente e autônoma. Segundo um estudo publicado na Frontiers in Psychiatry (2024), a superproteção suprime o senso de conquista e a autonomia, que são exatamente os dois principais precursores da depressão quando ausentes.

Como a criação dos anos 60 e 70 se compara à criação atual na perspectiva da psicologia?

A tabela abaixo resume as diferenças centrais entre os dois modelos e o que a pesquisa atual diz sobre seus efeitos no desenvolvimento emocional:

Aspecto Criação anos 60–70 Criação atual (tendência)
Nível de supervisão Controle do ambiente Baixo — criança explorava com autonomia Alto — monitoramento constante
Resolução de conflitos Entre pares Feita pelas próprias crianças, sem mediação adulta Adulto intervém rapidamente
Vínculo afetivo Relação emocional com os pais Presente — base segura em casa Geralmente alto — ponto positivo
Desfecho emocional documentado Pesquisa atual Maior resiliência e tolerância à frustração Maior ansiedade e depressão

Leia também: Citação do ator Bruce Willis em Duro de Matar: “Minha esposa me ouviu dizer ‘te amo’ mil vezes, ela nunca me ouviu dizer ‘sinto muito’” é um diálogo do filme que nos ensina sobre ego, amor e segundas chances

O que os especialistas recomendam para pais de hoje?

A resposta da psicologia não é “largue seu filho na rua como nos anos 70”. É mais precisa do que isso: ajustar o nível de autonomia à idade e ao contexto, oferecendo desafios que a criança pode enfrentar com o suporte emocional de um adulto presente, mas sem a intervenção imediata que remove o desconforto antes que ele seja processado.

Na prática, isso significa permitir que crianças em idade escolar resolvam desentendimentos com colegas antes de chamar um adulto; que adolescentes tomem decisões sobre rotina e atividades sem supervisão constante; que o tédio não seja tratado como problema a resolver com estímulo externo imediato. A revisão sistemática da Frontiers in Psychology conclui que a recomendação com maior suporte empírico é a parentalidade de suporte à autonomia, que combina calor afetivo com espaço para a criança agir, errar e aprender. A geração dos anos 60 e 70 não foi mais resistente porque teve menos amor. Foi porque teve, inadvertidamente, mais prática em ser ela mesma. Este artigo tem caráter informativo; para questões específicas sobre desenvolvimento infantil, consulte um profissional de psicologia.

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