“Trump escuta [Lula] e fica todo animado”, garante Durigan
Ministro da Fazenda defende revisão de programas sociais, regras de contenção para o Congresso e confiam em vitória petista
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o crescimento contínuo das despesas obrigatórias representa um risco estrutural para as contas públicas brasileiras. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele sustentou que, sem moderação nessa pressão, o país pode se tornar inviável do ponto de vista fiscal.
“Se o gasto obrigatório continuar comprimindo o limite, chega um ponto em que você zera a despesa discricionária. Aí não precisa ter governo: começa o ano, liga no automático, paga piso, previdência, política social, INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), salário de servidor, e acabou – não tem mais nada a ser feito. O desafio é moderar o gasto obrigatório”, afirmou.
Preocupado com as eleições, disse que “2023 começou com reconstrução e recomposição de política social, pisando no acelerador. Se a gente fechar 2026 reconhecendo a eleição sem ruptura institucional, dá para começar fazendo o serviço normal: revisar programas, unificar programa social e abrir espaço para investimento. O orçamento público hoje está direcionado para os mais pobres, em grande medida, mas, se não moderarmos a pressão das despesas obrigatórias, a gente inviabiliza o País”.
Durigan concorda “com o diagnóstico do ex-ministro Fernando Haddad: caminhamos para ter um ‘presidencialismo bem brasileiro’, em que o Executivo fica com a responsabilidade — inclusive de cumprir meta, apagar incêndio, contingenciar, bloquear — e o Legislativo concentra muito poder e competência, porque as decisões passam cada vez mais por lá. É um pouco essa a lógica do Brasil hoje. Agora, isso é um tema estrutural da relação política do País e não é simples de resolver”.
Quanto às pautas-bombas, não acha que “a negociação com o Congresso seja ruim — acho natural, eu gosto de fazer interlocução. O meu incômodo é o Congresso aprovar medidas sem o mesmo tipo de exigência formal que o Executivo tem: compatibilidade orçamentária, impacto, indicação de compensação, essas etapas que Tesouro, PGFN (Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional), AGU (Advocacia-geral da União) e áreas técnicas cobram de qualquer proposta do Executivo”.
Sobre o Mercosul e as relações comerciais com os EUA, o ministro da Fazenda garante que “o Trump tem uma deferência ao Lula. Em vários momentos em que estávamos conversando na Casa Branca, a chefe de gabinete do Trump entrou dizendo: ‘Agora é a hora de a imprensa entrar’. Aí o Trump disse: ‘Espera porque não sei se o presidente Lula concorda’. E o Lula disse que não concordava porque ainda tinha assuntos na agenda para conversar. Tem um respeito do Trump pelo presidente Lula”.
Tudo depende do resultado de outubro. De acordo com Durigan, “passada a eleição, acho que desanuvia. No cenário em que Lula ganha a eleição, teremos caminho aberto com os EUA. Vamos dizer que temos quatro anos no Brasil e vocês têm dois anos nos EUA. Vamos fazer negócios aqui. Aliás, Lula já fala isso para o Trump e ele fica mexido. Lula diz: ‘Trump, você tem 80 anos e eu também tenho 80 anos, somos as duas maiores democracias do Ocidente, temos que ter responsabilidade, vamos fazer o negócio direito?’ Trump escuta e fica todo animado”.
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