Estudo com mais de 268 mil pessoas revela que a frequência com que você vai ao banheiro também pode estar no seu DNA
A descoberta mostra que o funcionamento intestinal depende da interação entre DNA, nutrientes e vias biológicas ainda pouco compreendidas
Quantas vezes você vai ao banheiro por dia? Essa pergunta, aparentemente simples, está no centro de uma descoberta científica que pode mudar a forma como entendemos a digestão, a genética e até o papel dos nutrientes no funcionamento do intestino. Um estudo publicado na renomada revista Gut revelou que a frequência das evacuações não é apenas uma questão de dieta ou hábito, mas também está profundamente ligada ao DNA de cada pessoa.
O maior estudo já feito sobre hábitos intestinais e genética
Uma equipe internacional liderada pelo professor Mauro D’Amato, da Universidade LUM e do CIC bioGUNE, analisou dados genéticos e de saúde de 268.606 pessoas de ascendência europeia e do leste asiático. O objetivo era identificar variações no DNA diretamente associadas à frequência com que as pessoas evacuam, um indicador preciso do ritmo de funcionamento do intestino.
Os resultados, publicados em janeiro de 2026 na revista Gut, identificaram 21 regiões no genoma humano que parecem influenciar a motilidade intestinal, sendo 10 delas completamente novas para a ciência. A amplitude da pesquisa torna este estudo um dos mais robustos já conduzidos sobre o tema.

Por que o ritmo do intestino importa mais do que você imagina
Apesar de ser um assunto pouco discutido, os hábitos intestinais revelam muito sobre a velocidade com que os alimentos percorrem o sistema digestivo. Quando esse processo é interrompido, surgem condições como constipação, diarreia e a temida síndrome do intestino irritável (SII), que afeta milhões de pessoas ao redor do mundo.
Os mecanismos biológicos por trás dessas condições ainda são pouco compreendidos. Até agora, a ciência sabia que ácidos biliares e a sinalização nervosa por acetilcolina coordenam as contrações musculares intestinais, mas faltavam pistas sobre outros fatores igualmente relevantes. Foi aí que o estudo trouxe uma surpresa.
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A vitamina B1 e sua ligação inesperada com o intestino
Entre os achados mais intrigantes do estudo, dois genes se destacaram: SLC35F3 e XPR1. Ambos estão envolvidos no transporte e na ativação da vitamina B1 (tiamina) no organismo, e sua presença nos dados apontou para um papel até então ignorado desse nutriente na regulação intestinal. Para confirmar essa ligação, os pesquisadores analisaram registros alimentares de 98.449 participantes do Biobank do Reino Unido.
Os dados mostraram com clareza que pessoas que consumiam mais tiamina tendiam a evacuar com maior frequência. Mas o efeito não era igual para todos: ele variava conforme a composição genética de cada indivíduo, especialmente entre aqueles com variantes específicas dos genes SLC35F3 e XPR1, que apresentaram maior sensibilidade à ingestão da vitamina.

Como a genética transforma o efeito do que você come
Os autores do estudo criaram o conceito de “pontuação genética combinada” para descrever essa interação entre gene e nutriente. Isso significa que o impacto da vitamina B1 no intestino não é puramente dietético: ele é também geneticamente regulado. O Dr. Cristian Diaz-Muñoz, primeiro autor da pesquisa, resumiu assim os resultados:
- A genética foi usada para mapear as vias biológicas que controlam o ritmo intestinal
- O metabolismo da vitamina B1 surgiu como um dos principais sinais no mapeamento
- Mecanismos já conhecidos, como ácidos biliares e sinalização nervosa, foram confirmados
- A interação entre genes e nutrientes explica por que pessoas reagem de formas diferentes à mesma dieta
O futuro do tratamento da síndrome do intestino irritável pode estar aqui
Os pesquisadores identificaram uma “base biológica compartilhada” entre a frequência das evacuações e condições como a SII. Ao mapear as vias genéticas ligadas ao ritmo intestinal, o estudo abre caminho para o desenvolvimento de terapias direcionadas, capazes de levar em conta o perfil genético de cada paciente, não apenas seus sintomas.
Se você convive com desconfortos digestivos e nunca encontrou uma resposta satisfatória, a ciência está cada vez mais perto de entender por que o seu intestino funciona do jeito que funciona. Fique atento aos avanços: o que parecia ser apenas um hábito banal pode ser a chave para uma nova era no tratamento de distúrbios digestivos.
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