O que afasta (ou aproxima) as mulheres das ciências?
Pesquisas indicam que sinais sociais em salas de aula e laboratórios influenciam a permanência feminina em carreiras científicas
A baixa presença de mulheres em carreiras de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM, em inglês,) tem menos relação com aptidão ou interesse e mais com as mensagens implícitas transmitidas pelos ambientes onde essas áreas são ensinadas e praticadas. Não é falta de talento, “jeito” ou vocação. É falta de incentivo ambiental e quebra de esteriótipos.
É o que aponta um conjunto de estudos comentados no artigo “The Psychology of Women and Girls in STEM”, que analisa décadas de investigações sobre os mecanismos psicológicos que afastam meninas e mulheres dessas trajetórias antes mesmo de qualquer avaliação de competência.
O peso do ambiente sobre a identidade
Experimentos conduzidos por Murphy e colegas em 2007 demonstraram que a simples exposição a um ambiente com predominância masculina já é suficiente para acionar o que pesquisadores chamam de “ameaça à identidade social” — a percepção de que determinado grupo não é valorizado naquele espaço.
Mulheres expostas a esses ambientes apresentaram maior vigilância cognitiva e fisiológica, além de menor senso de pertencimento e vontade de participar. Os homens do mesmo estudo não registraram efeitos equivalentes.
Outro achado relevante diz respeito à composição visual dos espaços. Uma pesquisa de Cheryan e colegas, de 2009, mostrou que substituir objetos estereotipados em salas de informática — como pôsteres de ficção científica — por itens neutros foi suficiente para elevar o interesse das mulheres ao mesmo nível dos colegas homens. O detalhe do ambiente, portanto, carrega uma mensagem sobre quem é esperado ali.
Referências e redes como antídoto
De acordo com informações da mesma fonte, o contato com mulheres bem-sucedidas em áreas científicas funciona como uma espécie de vacina contra estereótipos.
Estudos de Stout e colegas, publicados em 2011, indicam que a exposição a especialistas do mesmo grupo de identidade elevou a autoeficácia das participantes, fortaleceu sua identificação com as áreas de exatas e aumentou a motivação e o esforço dedicados aos estudos.
A fonte também aponta que a imagem cultural do cientista — solitário, do sexo masculino e dotado de genialidade inata — contribui para afastar mulheres que valorizam objetivos comunitários.
Pesquisa de Diekman e colegas, de 2010, identificou que a percepção de que carreiras científicas oferecem poucas oportunidades de colaboração ou ajuda ao próximo é um preditor de menor interesse, especialmente entre pessoas com esse perfil de valores.
Entre as medidas apontadas para reverter esse cenário estão a visibilidade de modelos femininos em ambientes físicos e digitais, a formação de redes de apoio entre mulheres na área e a reformulação da linguagem usada para descrever as disciplinas — com ênfase em colaboração e utilidade social em vez de competição individual.
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