Proibido por 90 anos, esse material de construção retorna com isolamento 15 vezes maior que o concreto e séculos de carbono guardado
15x mais isolante que concreto e carbono preso por séculos
O hempcrete, concreto feito de cânhamo, ficou fora do mercado por quase um século por causa de uma confusão jurídica com a maconha, mas voltou em 2024, aprovado pelo código de construção residencial dos Estados Unidos, e está chamando atenção de arquitetos e engenheiros pelo mundo todo.
O que é hempcrete e por que ele ficou proibido por tanto tempo?
O hempcrete não tem nada de psicoativo: é uma mistura do miolo fibroso do caule do cânhamo, chamado de hurd, com cal e água. Quando essa mistura seca, forma uma parede leve, porosa e muito resistente ao longo do tempo. O problema é que, nos Estados Unidos, a lei federal não distinguia o cânhamo industrial da maconha por quase 90 anos, o que travou completamente o uso do material.
A virada veio com o Farm Bill de 2018, que separou legalmente o cânhamo industrial da maconha em nível federal. A partir daí, a US Hemp Building Association passou anos reunindo dados técnicos e submetendo padrões ao código nacional, até que o material foi formalmente incluído no Código Residencial Internacional de 2024, liberando seu uso em casas de um ou dois andares em vários estados americanos.

Como o hempcrete isola tanto e por que a cal é parte essencial?
A cal, que funciona como a cola do composto, reveste os poros do hurd e inicia uma reação química lenta com o gás carbônico do ar, um processo chamado de carbonatação. Com o tempo, essa cal se transforma em pedra calcária, deixando a parede cada vez mais dura e resistente. O resultado é um material com capacidade de isolamento térmico até 15 vezes maior que o concreto convencional, segundo revisão publicada no PubMed.
A estrutura porosa também absorve a umidade do ar quando o ambiente está muito úmido e a libera quando o ar seca, um comportamento que técnicos chamam de higroscópico. Isso impede o acúmulo de água dentro da parede, o que naturalmente inibe o mofo e afasta insetos, sem precisar de produtos químicos extras.
Quais são as principais vantagens práticas desse material?
O hempcrete resolve de uma vez problemas que materiais convencionais resolvem separadamente: isola termicamente, controla umidade, resiste ao mofo e ainda guarda gás carbônico dentro da estrutura por toda a vida útil do edifício. Quando o prédio é demolido, o material pode ser esfarelado e devolvido ao solo porque não contém aditivos sintéticos.
As principais vantagens para quem constrói ou reforma são:
- 🌡️ Isolamento térmico até 15 vezes superior ao do concreto comum
- 💧 Paredes que absorvem e liberam umidade sem acumular mofo
- ♻️ Gás carbônico guardado na estrutura por séculos
- 🌿 Cânhamo cresce em 90 a 120 dias e dispensa agrotóxicos
- 🔥 Teto reforçado com vigas metálicas resistentes ao fogo
- 🏠 Material biodegradável ao fim da vida útil do imóvel
Como o hempcrete guarda carbono e por que isso importa?
Durante o crescimento, o cânhamo absorve gás carbônico da atmosfera pela fotossíntese. Quando o hurd entra na parede, esse carbono fica preso ali dentro pelo tempo que o edifício existir, o que pode ser décadas ou séculos. Conforme registros históricos mostram, traços do material foram encontrados em pilares de pontes na França e em obras do século VI na Índia.
O volume de gás carbônico absorvido pelo cânhamo durante a colheita, segundo o The Guardian, frequentemente supera as emissões geradas para colher, processar e transportar o material, colocando o hempcrete muito perto de um perfil carbono negativo. Isso o coloca num lugar raro na construção civil: um insumo que, ao invés de lançar gás na atmosfera, retira e guarda.
Um comparativo rápido entre o hempcrete e os materiais convencionais:
Quais os limites do hempcrete e quando ele chega ao Brasil?
O material tem um limite claro: não pode ser usado em fundações ou em paredes que ficam em contato direto com o solo úmido. A umidade constante impede a cal de respirar e deteriora o hurd com o tempo, por isso o hempcrete funciona como preenchimento de paredes ao redor de uma estrutura de madeira, não como substituto do concreto nas bases da construção.
No Brasil, a regulamentação avançou com as resoluções RDC 1013/2026 e RDC 1015/2026, que abriram caminho para o cultivo e processamento do cânhamo industrial, mas normas técnicas específicas para a construção civil ainda estão sendo desenvolvidas. O material precisaria ser importado enquanto a cadeia produtiva nacional não se estrutura, o que encarece o acesso. Quem projeta com foco em sustentabilidade, porém, já acompanha o movimento de perto.
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